Saturday, July 28, 2007

Thursday, July 26, 2007

Jean Richard, en vacances

Quina ajeitou pela enésima vez a bata de flores e sacudiu as moscas que pousavam tontas no parapeito da janela, ou pelo calor ou pelo excesso de Old Spice que pairava no ar. Era já tempo da sua irmã Aurélia das Dores vir de vacances a casa, como fazia todos os anos desde que tinha emigrado para França, em busca de menos trabalho e mais ordenado, levando a reboque o seu marido João Ricardo, cujos anos e aculturação tinham tornado em Jean Richard.

Ao longe avistava-se já a velha catrela branca, com uma nuvem de fumo atrás capaz de fazer inveja a qualquer autocarro da Carris, antes de terem tido esta ideia de fazer combustível do oleo de fritar as batatas, que faz com que toda a gente saia do autocarro com um cheiro característico a petinga, em que só falta o arroz de grelos e o verde lagosta. Aurélia já botava a cabeça de fora em busca de Quina, enquanto Zé Camandro, pressentindo o reencontro anual com o pançudo do cunhado, se refugiava no café do Manco a ver os jogos da liga da Albânia na Sport TV.

Quina e Aurélia abraçaram-se efusivamente, bata de flores para um lado, camiseiro de 100% viscose para o outro, sacos de plástico do carrefour de Lyon rua abaixo, mais as crianças a olharem umas para as outras com ar de desconfiado, a ver que tinha a PSP mais colorida. No meio disto tudo, Jean Richard tentava sair detrás do volante, que insistia em manter-se na mesma posição, ao contrário da barriga do Jean. Tentando dar uma de Alain Delon - se bem que por aquelas paragens, de França, somente o Petit e os "croissantes" à venda no Pingo Doce. Ele bem se tentava impor com as suas camisas lacoste e ténis Le Coq Sportif, mas esquecia-se que já há muito que o 25 de Abril tinha aberto as fronteiras e o que agora estava a dar eram as camisas Sacoor e os mocassins Dutti - se bem que, ali pelo bairro, continuava mesmo era a dar a camisa desabotoada até meio, os sapatinhos de borla mais a peúga da raquete, e o característico cheiro a Old Spice. O bigode porém mantinha-se, em ambas as facções, com mais ou menos restos de comida do almoço, e mais ou menos amarelo, conforme se fumasse SG Ventil ou Português Suave. Que, com o Jean Richard era mais Gauloises, o que fazia que não se parecesse tanto com o Alain Delon, mas mais com o a Edith Piaf em final de noite, já traçada com dois ou três cognacs.

Aurélia porém, mantinha a mesma pose desde que se tinha ido embora: a mesma permanente temperada com vários tons de louro, desde o descolorado ao ar de queimado em demasia. As mesmas camisas floridas de 100% viscose, que dantes eram compradas nos Armazéns do Conde Barão, agora disponíveis em qualquer loja do chinês, por preços igualmente apetecíveis, com tamanhos a partir do 46. Unhas impecavelmente pintadas de vermelho vivo - mas só ao sábado à tarde, quando iam à manicura. Depois disso acabavam irremediavelmente manchadas e descoloridas, assim que punha as mãos no detergente para lavar o chão. O belo do chanato bicudo com um pouco de salto, uma chinela assim a dar para o fino, modelo que entrou em voga no verão de 2003, e que caiu rapidamente em desuso entre a maior parte das classes, excepto um sem número de mulheres do povo, que insistem em mostrar os calcanhares ressequidos, argumentando que uma chinela destas dá um ar de fina e dá jeito porque assim não se vêem os joanetes, mas por outro lado esquecem-se que passam a vida a encravar os saltos nas pedras soltas da calçada.

Jeanette e Michel André (não, este nasceu antes do famoso dueto com o mesmo nome, pelo que é mera coincidência), os rebentos do casal, levantaram os olhos das respectivas PSPs, tiraram um dos fones do leitor de mp3 do ouvido, pararam por solenes momentos de mascar pastilha com a boca aberta para olharem em redor e suspirar profundamente. Continuavam sem perceber porque motivo tinham de vir de férias a este país, onde eram obrigados a ler as legendas dos filmes, a ver desenhos animandos do canal Panda e a comer sardinhas com faca e garfo para mostrar que eram meninos de bom tom, criados em colégios de classe. Soraia e Márcio olhavam para os primos de lado, a pensar que eram mais quinze dias a partilhar o quarto com aqueles dois mastronços que nem falar a direito sabiam, quanto mais fazer a cama e arrumar os sapatos. De modo que sairam de mansinho, mandaram sms ao Mussulo e daí a pouco este estava a bater a porta, a dizer que havia festa no Bleza, e que vinha buscar a Soraia para um pé de dança. Jeanette, ao ver o volume do rapaz (que nada mais era que o telemovel tijolo - que até restos de cimento e tinta tinha colados), ficou logo impressionada e decidiu pela primeira vez colar-se à prima com ar simpática e dizer que também gostava de ir sair. É que Aurélia raramente lhe dava azo a esses passeios - queria que ela se mantivesse pura até ao casamento que tinha endrominado mais uma comadre que era porteira no prédio vizinho no bairro onde viva, a ver se a ajeitava com o filho da respectiva, um tal de Jones, aprendiz de mecânico - o jeito de mãos compensava os dentes a menos. Mas como a rapariga estava de vacances...lá a deixou ir.

Jean Richard ficou tão verde que até parecia um adepto do Sporting.

Wednesday, March 28, 2007

Mulheres a dias, Lda.

Quina decidiu finalmente melhorar o magro orçamento familiar. É que entre o salário mínimo do Zé Camandro, o subsídio de desemprego do Márcio, o abono de família da Soraia, a coisa tem de ser muito esticada. Lá felizmente que a renda da casa não passa dos 1,80 euros por mês (não é actualizada desde que a tia avó da Quina foi para lá morar antes do Salazar morrer), e a TV Cabo é uma puxada da vizinha Natércia, que mandou por a parábola só para poder ver o wrestling na Sic Radical - diz que lhe faz lembrar os tempos de luta greco romana, quando trabalhava no cine bolso. A Famel há muito que está paga, assim como o Fiat 127, que vai dando para as curvas. Agora os putos é que estragam completamente o orçamento.

Primeiro foi com os telemóveis com máquinas fotográficas, que o Márcio usa para ver pornografia que saca da internet no computador que Zé adquiriu a crédito na loja do Electro Fanan, em suaves prestações de 10 euros por mês - mais o écran, impressora, teclado, rato, mesa digitalizadora, sistema de som, leitor de DVD's, leitor de código de barras, gira-discos, fritadeira e uma série de coisas que o Fanan disse serem imprescindíveis para a miúda fazer os trabalhos da escola - calcula-se que estará pago lá para 2027. Depois foi o Márcio que embirrou que queria uma consola de jogos porque todos os amigos lá do bairro tinham uma. Lá veio a Playstation, comandos, controlo, ecran gigante e um sofá para albergar os moços todos lá em casa, porque as playstation deles já estavam todas quinadas de tanta pancada.

Mais a conta do lar da sogra, as quotas do Benfica do Zé, as horas de calista da Quina, e o aparelho dos dentes da Soraia...vai-se o orçamento todo.

Quina viu um anúncio a pedir mulheres robustas para trabalhos domésticos, lá no painel de anúncios do Lidl de Xabregas, e como já tinha prática de esfregar escadas, achou que podia tentar. Ligou, marcou a entrevista para o dia seguinte. Botou a melhor bata que tinha no armário - a de flores cor de rosa com uns folhos no bolso da frente, tirou do armário as Dr. Scholls que o Zé lhe ofereceu no Natal, collants escuros de descanso e tirou os rolos do cabelo. Apanhou o 49 para Xabregas, e lá se apresentou ao serviço.

O dito dono da empresa, Bóinas para os mais chegados, Sô Tôr para as empregadas, deu-lhe as boas vindas e tratou de a pôr ao corrente do trabalho - sempre que houvesse trabalho ao domícilio que cabesse nas medidas dela (Quina deu por si a pensar que raio de medidas eram aquelas), era chamada. Vinha recolher o uniforme, e seguia para o cliente. Também acontecia serem tarefas mais pesadas, que já exigiam que fossem grupos (Quina pensou que eram daquelas limpezas pesadas, a arredar armários e coisas assim). Aceitou de bom grado, até porque como era sem recibo, podia continuar a receber o rendimento mínimo garantido.

No dia seguinte logo lhe ligaram a avisar que tinha serviço. Passou pelo escritório para recolher a bata e os instrumentos. A matrona de serviço, uma louraça com mais pregas que uma das colchas de folhos que o Tóino Andrade vende lá no bazar, olhou-a de alto a baixo e foi buscar um saco grande com um fato preto de latex lá dentro, e mais uma malinha preta. Não querendo fazer parte de ignorante, dirigiu-se à casa de banho e lá se tentou espremer para dentro do fato, pensando que assim não havia mancha de líxivia que lhe manchasse a bata. O decote era um bocado vantajoso, mas afinal até mesmo uma mulher de limpeza tem que ter um toque de coquete. Agarrou na malinha preta e foi para dentro da carrinha mais as outras empregadas. Notou que a maior parte delas eram brasileiras (coitadinhas, com uma vida tão boa que podiam levar lá com tanto sol e homens bonitos).

Primeira paragem, gritou o motorista - tudo lá para fora. Quina saltou da Fort Transit, e entrou a direito na porta aberta, de onde vinha um cheiro a sardinha assada e a copos de três. Na entrada, tinha escrito "Casa do Benfica de Fontanelas". Mas que raio, pensou Quina...se calhar precisam de uma limpeza geral ao prédio...

Friday, March 16, 2007

xi, que isto vai dar molho

Borisina fez o seu olhar de mulher traída...e partiu para a porrada. Que isto de meter a mão no marido dos outros é ofensa corporal, mortal e única: quem a fazer não volta a viver para mais.

Alcina não se fez rogada, mas também não viu com bons olhos uma estadia no hospital a tomar sopa por uma palhinha.

Virou-se para Borisina, com a mostarda no nariz, mas com a bandeira branca da paz. Borisina não foi nessa, e descalçou o chanato para lhe arrear umas quantas naquele lombo. Iuri, causa assumida da disputa, aproveitou o momento de silêncio para agarrar no balde e na esfregona e sair de mansinho...mas o patriarca/sogro apanhou-o pelo cachaço e enfiou-o dentro da carrinha, onde os dois primos distantes (em 34.º grau por parte da tia Slava - a de bigode louro - convém especificar a cor do bigode, dado que a maioria das romenas tem como característica assumida o farto bigode, engrossado a toques de gilette ferrugenta), casada duas vezes. Esses dois primos padeciam de falta de masculinidade, motivo pelo qual os decidiram exportar da Roménia, uma vez que tinham mais interesse em andar lavados e bem vestidos do que dar porrada nas esposas e a cuspir para o chão. Dado que Iuri sempre foi um pedaço de homem - ainda tinha os dentes todos e fazia a barba de semana a semana - o patriarca achou que precisava de uma lição e lá foi ele conhecer mais um lado negro da vida.

Entretanto, Borisina já tinha agarrado Alcina pelos cabelos e estava a fazê-la provar o sabão azul e branco do balde de lavar o chão. Todo o mulherio já gritava e ameaçava chamar a polícia, mas como ninguém tinha Alcina em boa conta, ninguém se lembrava bem do número da esquadra da GNR que ficava na rua de baixo. Quanto aos poucos machos existentes àquela hora na rua - tinha ido tudo ver os treinos de futebol dos Passarinhos de Xabregas, no descampado onde costumam fazer os bailes e desmontar os carros roubados - ficaram subitamente fascinados pelo Fiat 127 que o Toni Rater
estava a desmontar lá na oficina dele, e evaporaram-se.

Borisina achou que estava na hora de trocar de método de tortura (tinha acabado de ver uma vassoura encostada à parede), quando arrancou a cabeça de Alcina do balde, e eis senão quando lhe salta do pescoço uma medalha do Tony Carreira, autografada e tudo. Daquelas brilhantes, fluorescentes, só faltava mesmo a música "sonhador" para o toque final brega. Foi quando Borisina reparou que até as cuecas de gola alta da Alcina traziam estampadas a imagem do ídolo, do galã, desse poço de virtudes e voz maviosa que é o Tony. Alcina caiu no chão, ainda a deitar bolas de sabão da
boca, enquanto Borisina se afadigava a desabotoar a bata e a mostrar a tshirt meio sebosa que trazia por baixo, com a imagem do ídolo, e a data da sua tournée na Roménia, ainda a fazer de parte inicial ao Toy, numas férias de verão dos idos anos 80. Alcina começou de repente a entoar o "depois de ti mais nada", rapidamente acompanhada por Borisina, no seu tradicional sotaque romeno. O patriarca puxou então da viola que tinha roubado algures em Espanha, a um grupo de ciganos, e acompanhou-as em tom de fundo, enquanto todas as mulheres suspiravam ao lembrar-se do ídolo, que
quando era pequenote tinha passado uns tempos ali na casa de uma tia avó, nas férias da escola. Já nessa altura, mesmo garoto, encantava a maioria das mulheres, quando decidia imitar o Marco Paulo ou o Vitor Espadinha, nas festas da quermesse da igreja.

Terminada a música, Borisina sorriu para Alcina, voltou a calçar os chanatos e a abotoar a bata. Alcina, num gesto cordial, tirou do pescoço a medalha, e qual oferenda de paz, du-a a Borisina, que se desfez em agradecimentos. Acenou a um dos primos, que puxou de um saco preto que trazia na bagageira da carrinha, e ofereceu a Alcina a colecção de DVD's dos concertos do Tony Carreira. Aí se selou uma amizade e a paz foi finalmente estabelecida. Alcina convidou inclusive Borisina e a família lá para casa, onde poderiam ficar o tempo que quisessem.

Foi quando o patriarca se apercebeu do silêncio dentro da carrinha e reparou que nem os dois primos, nem Iuri lá estavam. Homem desonrado não é recordado, de modo que foi de comum acordo que se eliminasse Iuri e os primos da árvore da família, e Borisina, alegre viúva, tentaria começar de novo a vida. O patriarca decidiu então que estava feita justiça, e acartou o resto do contrabando que tinha...adquirido na Feira do Relógio, e decidiu voltar à Roménia para os vender. Borisina, com a sua autorização, ficaria em Portugal, onde melhores condições de vida a esperavam, e onde poderia fazer uma carreira fulgurante de mulher a dias, e talvez um dia poder alugar uma casa com móveis.

Alcina e Borisina viveram felizes no mesmo lar durante anos, partilhando das mesmas batas às flores e dos rolos na cabeça, e da sua paixão por Tony Carreira. Aos fins de semana arrancavam para as tournés, e durante a semana limpavam os escritórios na Baixa, onde aproveitavam também para entreter os seguranças da noite com as suas fardas pingonas e as suas chinelas ortopédicas. Nunca mais homem se viu naquela casa, como se a paixão e os valores do casamento se tivessem eclipsado. Embora de vez em quando se ouvissem uns barulhos de uma qualquer geringonça vibratória e meia dúzia de suspiros, que todos admitiam ser derivado dos DVDs do Tony Carreira.

Quanto a Iuri, era frequentemente visto no Bairro Alto, sempre de braço dado com dois tipos que pareciam saídos daquela banda, os Village People. Mas nunca mais se atreveu a entrar no bairro.

Friday, March 9, 2007

despacha-te que vai começar a novela

Quina assoou-se novamente ao molho de kleenexes que tinha trazido da esteticista. A desgraça tinha-se abatido sob a rua, quem nem folhetim dramalhão do Eça de Queirós, com direito a facadas, incerto e sabe-se lá mais o quê.

A vizinha do direito - aquela quarentona enxuta que insistia em mostrar as ancas - assim como a celulite galopante, os furúnculos e as cuecas de gola alta que trazia por debaixo da micro saia - que muitos chamaram de cinto - tinha tido um desgosto amoroso. Ela, que passava a vida de janela a mirar os garotos que paravam em frente ao café do Manco, a ver algum deles lhe dava atenção, decidiu finalmente ir à luta e engatar um tipo para lhe tirar as teias de aranha. Ela, mulher rija e cheia de carnes, gostava muito de se vestir à moderna, com aqueles tops que pareciam tirados da filha mais nova - que era anorética e lisa que nem uma tábua de engomar, achava que ainda merecia viver a vida com jeito. Durante anos esteve casada com um inspector da ASAE, que lhe dava pancada todas as noites, quando vinha já alcoolizado das inspecções que fazia aos tascuns da zona, em que todos os dons lhe pagavam uns copos para ele não reparar nas baratas e nas datas passadas de prazo dos sumóis e dos caramelos Mouro, que não eram produzidos desde 1980. Chegada a viuvez - e o respectivo subsídio - o inspector foi atropelado por um camião com restos de carne que ia para a fábrica da cola, Alcina Rondeira decidiu aproveitar a vida. Começaram as rondas nas casas de fados, as noites à janela, os bailes e as quermesses da paróquia. Todos os miúdos do bairro passavam pela casa dela para lhe comer os bolos e a mousse de chocolate e saiam de lá sempre vermelhos e extenuados. Sempre saía mais barato do que visitar o botequim da Tina, ou dar um salto ao Cinebolso. Além disso, ela tinha o hábito de se despir com a luz acesa e a janela aberta, e era melhor do que ver os filmes do canal dezoito porque não estava codificado.

Até ao dia em que Alcina se envolveu com aquele stripper romeno que encontrou numa festa de aniversário de uma amiga igualmente libertina, e que decidiu albergar lá em casa porque o rapaz fazia uns ovos mexidos com chouriço que eram um mimo. Além de todos os outros favores que lhe ia fazendo. O Iuri, como toda a gente o conhecia lá na rua, cozinhava, passava a ferro, estendia e lavavas as escadas. Aí começou a ser a coqueluche das mulheres, pois era um gosto ver o rapazinho de rabo para o ar, sem camisa, a encerar as escadas do prédio.

Meses de escadas e ovos com chouriço depois, eis que passa uma Ford Transit branca cheia de ciganos à porta da casa de Alcina, de onde saiu uma família inteira mais os respectivos conjuges, afilhados e parentes afastados. Iuri era casado e tinha deixado a mulher na Roménia. Vai daí, ela veio ter com ele, e como é hábito lá, tem de trazer o resto da família. Borisina, de corpo quadrado (rectangular?), mamas com identidade própria e bigode igual ao do pai (excepto a verruga que tinha no queixo), vestida na sua bata de flores surrenta, com as suas peúgas de lã verde garrafa e um puto ranhoso pendurado à cintura, sorriu com os únicos dois dentes que lhe sobravam ao ver Iuri. Atrás dela, a família - que mais pareciam os Gipsy Kings em fim de linha - começou a desrolhar as garrafas de aguardente e a montar a tenda para dormir por ali, no meio da rua.

Foi quando Alcina apareceu e pôs a mão no ombro de Iuri - o rabo estava inacessível para lhe dar palmadas. Borisina, cheirando à distância a traição, mandou as crianças roubar relógios aos velhos do jardim, e pôs o patriarca ao corrente da situação. Alcina, com ar surpreendido, olhou para a família e deu dois passos atrás, a tempo de se desviar da primeira estalada de Borisina. Mas como não era mulher para se ficar atrás, e puxou da chinela para ir à luta.

(continua)

Friday, March 2, 2007

No Carnaval de Torres Vedras

Quina lançou a ideia...












Os primos Zé João e o Celestino aproveitaram...


















Mas Zé Camandro inovou!

Thursday, March 1, 2007

Tuesday, February 20, 2007

raios te partam são valentim

Tanto bateu, tanto remoeu, tanto insistiu, que Zé Camandro não teve hipótese. Quina queria um jantar romântico no dia dos namorados. Lá que já fossem vinte e cinco anos de casados, a verdade é que continuava a ser preciso ter algumas atenções para o respectivo parceiro, para manter a chama. Zé Camandro botava a mão no fogo em como a Quina tinha andado a ler outra vez o diário de Maria, mais aquelas ideias malucas que costumam pôr na cabeça das mulheres, só para chatear a vida dos homens. Isto no tempo do Salazar é que era bom. Todas em casa, a bordarem almofadas e o enxoval, a namorarem de janela (vá-se lá saber como engravidavam!), da casa dos pais para a casa do marido... agora é só modernices, andam aí todas descascadas (não que algumas não dê para lavar a vista), a trabalhar por fora (se bem que as meninas do gás são um regalo para a vista) e a fazer coisas de homens (e aquela jeitosa da bomba de gasoil...?). A bem dizer, talvez hajem vantagens.
Assim foi. Zé Camandro tomou o seu banho. De after shave, lá está. Como é um dia especial, trocou de Brut para Old Spice, para ter um ar mais distinto. Fato cinzento de risca e quadro 100% tirilene, o belo do sapatinho de borla envernizado, a bela da camisa de riscas cor de vinho (boldô, como disse o chinês da loja), o pelame a descoberto, a cruz de ouro plantada no meio. Quais gravata, isso é para quando a filhota se casar, ainda tem o nó feito, é melhor não estragar. Já que estava num de espicaçar o romance, puxou daquelas meias do kama sutra que lhe ofereceram nos anos - há que variar da peúga branca, nem que seja por um dia. Barba feita, patilhas alinhadas, cachucho no mindinho e unhaca polida. Um mimo! Telemovel tijolo no bolso da camisa, e o raybante no cabelo coberto de brilhantina.
Quina demorou um pouco mais de tempo, depois de ter passado pela calista (tinha de caber dentro dos sapatos de salto), pelo cabeleireiro (a última mise já tinha cinco centimetros de cor diferente) e pela esteticista (que demorou que tempos para arrancar aquele buço e lhe refazer as sobrancelhas). Custou a entrar no vestido preto que tinha usado na última festa de gala do bairro - quando decidiram fazer o baile de finalistas da escola secundária lá da zona (é que quase ninguém chega à universidade, de modo que tiveram que se remediar) - daqueles com mangas compridas de renda e um decote que mais descobre do que destapa. Muitos folhos, e uma echarpe de cor forte (amarelo berrante, daquele que surge nas fraldas dos bebés). Sapatos de salto, coisa a que Quina não está muito habituada por causa das dores das cruzes e dos buracos no passeio.
Zé Camandro foi entrentanto tomar o aperitivo ao café do Manco enquanto ela não se despachava com a maquilhagem. Depois de ter lido a Bola de uma ponta à outra, lá se decidiu a ir chamá-la, ou ainda perdiam o primeiro prato. Quina desceu a muito custo os degraus, com medo de por o sapato em algum dejecto canino deixado pelo pit bull do vizinho de cima.
Chegados à rua, e dado que o fiat 127 estava na oficina para trocar as molas da suspensão, tiveram que ir na antiga Zundapp do Zé, que ainda estava ali para as curvas. Deitava um bocado de fumo, mas isso era por causa do oleo fula que o Zé usava como combustível, numa de poupança. A Zundapp ainda tombou para trás quando Quina se ajeitou no banco traseiro, mas como era para descer a rua, até se fez bem. Bem demais, chegaram ao restaurante da Ti Rosa num instante, quase nem deu tempo para travar. Quina fez o que se chama uma descida em movimento. Zé Camandro avançou pomposo para a entrada, anunciando que tinha uma reserva para dois. Olhou para dentro do restaurante e viu que não era o único. Estava lá o Tóino João, o Toni Casquinha, o Mané das foices, o Chiquinho dentola, o Nelas, o Necas, o Chico Rater e mais uns quantos. Tudo com ar desconsolado, mas à luz da vela. As mulheres pareciam saídas daqueles filmes dos anos sessenta, com quilos de rimel nos olhos, sombras verde forte e toneladas de tinta cor pastel a fazer de base. Todos os maridos estavam a pensar que, se tivessem sorte nessa noite, iam ter igualmente de tomar umas quantas águas das pedras para desfazer a azia de andar a lamber aquilo tudo.
No ar ouvia-se Toni Carreira, brilhantemente imitado pelo acordeonista de serviço, o André Afonso, talentoso rapaz de quinze anos, que tinha tanta acne naquela cara que não se percebia se era ele ou uma bola de espelhos. Como toda a gente ficava fixada na cara do rapaz, ninguém notava as fífias na música, isto porque o rapaz estava na mudança da voz - até há bem pouco tempo só tocava músicas da Ana Malhoa.
O menu, porque era dia dos namorados - mas também dia de jogo do Benfica - era todo a vermelho. Sopa de tomate, febras com salada de tomate à algarvia, gelado de morango. Também havia vinho tinto, se bem que só as mulheres disseram que sim, uma vez que era um jantar fino. Até beberam dos copos com o mindinho levantado, como costumavam ver na novela da tarde. O resto dos machos foi corrido a mines, a acompanhar as azeitonas do "cuverte". Mudou-se logo o canal da televisão para se ver o Benfica, apesar dos protestos femininos. Estas, enquanto não se acabavam de grelhar as febras, lá aproveitaram para por a conversa em dia, que desde dessa manhã que não se actualizam no mais recente escândalo da velha do terceiro esquerdo que andava a viver com um kosovar trinta anos mais novo, e mais o seu cão.
A sopa foi servida no intervalo do jogo, para não causar grandes interrupções, e lá se pôs novamente o André Afonso a tocar, para dar ambiente à coisa. Foi nessa altura que Quina, tal como tinha lido nos fotoromances da revista Ana, decidiu perguntar ao Zé se ainda sentia o mesmo calor que tinha sentido naquela primeira vez em que sairam juntos.
"Não...mas eu também não tenho as mamas enfiadas no prato, como tu tens agora!"

Tuesday, February 13, 2007

Márcio André e o seu livrinho preto de dicas

Por acaso andas na tropa?... É que já marchavas!

Contigo... era até achar petróleo! ...humm, interessante, e já agora, tens perfuradora?

Num dia de chuva: - Xiii! não podemos sair, chove a dar com o pau... por falar em dar com o pau...

És católica?... É que tens um cú, valha-me Deus!

Posso não ser bonito como o Brad Pitt, nem ter os músculos do Scwarzenegger, mas a lamber sou uma Lassie... : imagino, também te babas?

Se é verdade que somos o que comemos, eu amanhã podia ser tu!!!

"Come to me", que eu como-te a ti...

Com uma montra dessas..., imagino como é que é o armazém!

Olha, queres ir lá a casa para ouvir música? Se depois não gostares da música, podes vestir-te e ir embora?

(Lamber o dedo e passar na camisola dela) É melhor tirares essa roupa molhada.

Estou a lutar desesperadamente contra o impulso de fazer de ti a mulher mais feliz do mundo, esta noite!

Só queria que fosses uma pastilha elástica para te comer o dia todo.

Essa roupa fica-te muito bem, mas eu ficava-te melhor.

Gostava de ver como ficas comigo nu.

Não és nada má, já tive muito pior e a pagar.

Lindas pernas, a que horas abrem?

Lindas pernas, só é pena serem a primeira coisa que se põe para o lado.

Posso-te pagar um copo, ou preferes o dinheiro?

Posso não ser o tipo mais giro, mas sou o único que está a falar contigo.

Isso é tudo teu?

Há mais lá em casa como tu?

Sentes a magia que há entre nós?... Mais abaixo!

Desculpa, pensei que fosse uma etiqueta em braille.

Só queria que fosses um cavalinho de carrocel, para te montar o dia todo por 100 paus.

Ajudas-me a procurar o meu cãozinho? Acho que entrou neste quarto de hotel.

Acreditas no amor à primeira vista, ou tenho de passar outra vez?

Olá, sou o tipo perfeito. Disseram-me que andavas à minha procura.

Os meus amigos querem saber se achas que sou giro.

Posso tocar no teu umbigo . . . da parte de dentro?

Não sou muito bom em matemática, mas 1+1 = 69?

Podes não ser a rapariga mais gira, mas com a luz apagada também é bom.

Só quero saber o teu nome para quando me masturbar saber em quem estou a pensar.

O meu amor por ti é como a diarreia, não o consigo manter cá dentro.

Ia até ao fim do mundo por um dos teus sorrisos, e ainda mais longe pela outra coisa que podes fazer com a boca.

(Olhar para o fecho das calças) Bem, sabes, não se vai chupar sozinho.

Se tivesse no teu lugar, tinha sexo comigo na boa!.

Tu e eu. Chantilly e algemas. Alguma pergunta?

Essa roupa ficava um espectáculo no chão do meu quarto.

Não te esqueças do meu nome, mais logo vais gritá-lo.

Se fosses a última mulher e eu o último homem na Terra, aposto que fazias amor comigo em público..

Queres vir a minha casa para sexo e pizza? Não?! Não gostas de pizza?

Costumas dormir em cima do teu estômago? Posso dormir eu?

Deixa-me ver a etiqueta da tua camisola. Quero ver se diz "Made in Heaven".

Doeu muito quando caíste do céu?

Sapatos giros, vamos para a cama?

Vou dar-te uma foda nessa naça, minha cabra.
Caluda e abre o grelo que já estás a escorrer melaço até aos pés!
(com estas palavras doces, infalível!)

Monday, February 12, 2007

Zé Camandro está de ressaca

Sábado chegou, e Zé Camandro tirou o cachecol do glorioso do louçeiro de vidro e sacudiu as bolas de naftalina. É dia de jogo da taça, e há que ir vestido a rigor. Com o seu cartão de sócio já gasto nas pontas de tanto o tirar da carteira para mostrar aos amigos do café - e cujas quotas não paga desde que se registou em 1967 - Zé Camandro rumou ao café do Manco, onde se tinham reunido todos os adeptos benfiquistas do bairro, desde que o projecto da casa do Benfica foi embargado porque o Zé Calceteiro se afiambrou aos tijolos para construir uma casa ali na Fonte da Telha, para passar as férias - isto porque lhe roubaram a roulotte que tinha no parque de Campismo da Orbitur. Depois disso, alugou-a a vinte e cinco brasucas que lá vivem felizes e contentes, fazendo a tristeza das mulheres do parque de campismo - porque as brasileiras levam mais barato - e por isso mesmo, a alegria dos restantes visitantes masculinos. Quanto ao cimento, serviu para construir uns tanques de lavar a roupa, que estas modernices de máquinas de lavar a roupa não são para gente humilde. Além disso, no verão, dão muito bem para os putos chapinharem, em vez de se estar a pagar balúrdios de dinheiro pela colónia de férias em santo amaro de oeiras.

Já o grelhador - isto depois do Zé Manco lhe ter dado umas bordoadas no candeeiro para sacudir o sabor das sardinhas grelhadas no dia anterior - estava quentinho. Note-se que tinha sido feito a partir de um bidon subtraído à bomba de gasolina, mais umas grades que tinha arrancado da escola primária - sim, porque agora os miúdos não precisam de grades, com a polícia sempre a rondar ali à volta. O alguidar de couratos - alguns deles ainda com pelo e com o respectivo carimbo de origem - estava temperado e pronto a ser consumido. Já dizia o Zé Manco, "comer coourato com pelo é como comer uma alemã".

Começou o jogo na televisão, uma boa telefunken a preto e branco - estava mais para o amarelo por causa do fumo de tanto SG Ventil que ali dentro se fumava. O belo do naperon branco por cima, para evitar as nódoas das moscas que morriam electrocutadas - também morriam umas quantas no papel mata moscas, mas isso não dava muito resultado porque havia quem costumasse usar o papel para apagar as beatas. Começou o despique da mine, mais a bela da carcaça com courato. Para os mais saudáveis, havia tramoços e minuins.

Corriam os habituais bitaites acerca do desempenho dos 22 coxos que andavam a pastar na relva, mais o mariconço de preto que queria tocar o pifaro a quem se metesse à frente, quando o Manco decidiu inaugurar uma garrafita de aguardente que lá tinha guardada desde o tempo do avô, que era contrabandista ali em Sacavém, a passar uisque para água e álcool, nos tempos da greve dos comboios.

Vai de copo de três para todos quando chegaram ao intervalo. Foi então que todos se levantaram ao mesmo tempo para ir mudar a água às azeitonas, e não havia urinóis que chegassem, de modos que foi tudo enfeitar a parede traseira do café. Mas...aquilo era mais do que água...

E desatou tudo a correr para casa...

Friday, February 9, 2007

Febre de sábado de manhã

Para gente trabalhadeira e honrada, sábado de manhã é dia de botar uma roupita prática, afim de ir buscar pão para a família. Enquanto a Quina dá um jeito na casa, ao som de mais um sucesso do Lucas e Mateus, que pela enésima vez choram a namorada que perderam, Zé Camandro tenta ajeitar o barrigão dentro do novo fato de treino fluorescente, comprado nos saldos do chinês - sim, que o chinês vende mais barato que os ciganos ali da feira do relógio - e dá um salto ao café do manco, para o xiripiti e o café, enquanto lê a Bola e o Destak do dia anterior. Corrente de ouro ao pescoço, peito descoberto a deixar ver o pelame, cachucho do anelar, telemóvel na bolsa de cintura, e está aviado. Só mais uns toques de after shave Brut (há moscas que começam a sentir-se zonzas), para refrescar.

Passa a Quina, arrastando atrás o perigoso carrinho de rodas que tantas canelas já danificou, bate na porta do café, e grita lá para dentro "Zé, vamos embora!" Levantam-se sempre vários, resmungando entredentes pela leitura interrompida, mas só um teve azar e tem mesmo de ir.

A primeira paragem é na praça dos sapadores, para comprar uns carapaus para cozer para o almoço. Zé Camandro olha desconfiado para os peixes, todos com um ar arremelgado de quem não vê o mar há muito tempo. Comenta para a Quina que aquilo tem ar de ser carapau de aviário. Comentou demasiado alto, que salta de lá a Tina Peixeira, pescoço carregadinho de ouro, mais as arrecadas que vêm desde a bisavó Malena, e um dente de ouro que quer deixar à filha mais nova para ela um dia dar entrada para um apartamentozito ali na Graça. Quais carapaus de aviário, quais quê. Fresquinhos, foi ela de madrugada buscá-los a Sesimbra. Vêm para aqui estes finórios armados aos cucos, com a mania que sabem de peixe...a única coisa que sabem é do atum em lata. Zé Camandro faz vista grossa e afasta-se da banca, prometendo entredentes que se fosse mulher dele, logo lhe dava a lata, e mais o atum. Quina, como sempre, dá-lhe uma cotovelada a ver se ele se endireita e se decide a comprar alguma coisa, que já vão sendo horas de ir para casa e ainda têm de passar pelas verduras, que amanhã é dia de cozido à portuguesa. Isto enquanto passa com o carrinho por cima dos pés da Otília, aquela lambisgóia do terceiro direito que vive amancebada com o brasileiro de vinte e cinco anos e pais de gémeos, que é stripper em part time no T.

Zé Camandro lá se decide numas pescadinhas de rabo na boca, que ficam a matar com um arrozinho de grelos, daqueles maladrinhos. Incha o peito, faz ar de bazófia, e exclama para o ar, que agora só faltam os grelos para completar o ramalhete. Isto porque estava a olhar para a banca da fruta, onde os marmelos da Beta - não a fruta, note-se - estavam ajeitados. É a vez de Quina fazer vista grossa, e de lhe dar um encontrão, que quase derrubava o garrafão de tinto que Zé Camandro tinha comprado ao indiano que montou uma banca à entrada. Mesmo ao lado do homem dos raybantes, hoje em promoção de dois por cinco érios. É de aproveitar, que agora com o verão a chegar, vão dar jeito. E vão ficar mesmo a matar com o fato de quadrados e a camisa de flores, para quando for lá o próximo baile do centro recreativo.

Pequena paragem na drogaria para comprar mais uma dose de after shave - vá-se lá saber como, aquilo parece que evapora, e vá de rumar a casa a tempo de ver o telejornal, enquanto Quina tempera e frita as pescadinhas para o almoço.

Zé...vai lá buscar o pão que não te lembraste...



Monday, January 29, 2007

Zé Camandro dedica-se à leitura

Destaque para:
"FIAT 127 WRC: PURO SANGUE LATINO

O 127 WRC é um prodígio da tecnologia caseira. Os dois primos Zé Trincaespinhas e Xico Rátere conseguiram desenvolver uma verdadeira bomba, a partir de um monte de ferro-velho. Construído com base num Fiat 127 de 1976, este puro sangue latino está equipado com um potente motor de 2000 cc, retirado de uma Toyota Dyna que estava na sucata. Só assim foi possível obter uns impressionantes 300 cavalos num carro com mais de 25 anos. Para competir com os bólides do Mundial, o mecânico Tónio Ferrugem instalou uma caixa semi-automática de dez velocidades, que tirou, por empréstimo, da cadeira de rodas do avô. O sistema de suspensão é também uma novidade de fabrico caseiro: o navegador Xico Ratére conseguiu retirar as molas de um colchão ortopédico Pikolin e distribuiu-as pelo carro, conseguindo uma surpreendente estabilidade em curva."

Edição cortesia da Trombeta de Casal da Burra.

Thursday, January 25, 2007

Soraia Andreia

Quina bate no peito com orgulho, fazendo chocalhar os quatro cordões de ouro, que se enlhearam nos anéis e na pulseira onde tem pendurados os primeiros dentes de leite que caíram dos catraios. A Soraia Andreia, que está agora a fazer quatorze aninhos, foi a primeira a vir. (O Zé Camandro bem que apostou num rapaz, para o fazer logo sócio do glorioso, mas a sorte não estava do lado dele) Moça rija e recheada de carnes (diz a Quina que agora na última consulta da caixa lhe deram grau II de qualquer coisa a ver com o peso, o que só pode ser algo de bom; ela tem é de se esforçar para chegar ao grau um, não é?). A Soraia gosta muito de ver a MTV - agora que o Zé finalmente fez a puxada da parábola do vizinho - e também aquela coisa dos morangos que passa na TVI, que é para onde ela diz que quer ir trabalhar quando for maiorzinha. Agora, limita-se a sair com as amigas até ali ao café do Sanefas. Lá de vez em quando vai fazer umas noitadas de estudo na casa da Vanessa, e devem ser produtivas, pois ela volta sempre cansada e dorme o dia inteiro a seguir. Raparigas desta idade estão sempre em crescimento, assim se percebe porque é que a Soraia anda sempre com as camisolas muito acima do umbigo, e com as calças tão apertadinhas. Também já notou que as saias também lhe vão fugindo pernas acima...mas o que há-de uma pessoa fazer, o dinheiro não chega para tudo, dá-lhe pena ver a rapariga com aquelas camisolas assim meio esfarrapadas e cheias de bonecos, mas ela diz que é moda, que se usa assim.
Agora diz que quer um telemóvel de terceira geração (o Zé e a Quina não perceberam - em segunda mão sempre se podia orientar alguma coisa de jeito, agora de terceira...eles não estão assim tão mal de finanças, caramba), para poder falar com o namorado, o Mussulo, que mora na Brandoa e que costuma vir visitá-la no seu Mercedes cor de azeitona passada do prazo, ao som de Kizomba, porque afinal o sistema de som que instalou no banco de trás, mais as quatro colunas e o amplificador na bagageira.

Wednesday, January 24, 2007

Zé Camandro, the character

Ele existe...toma pelo nome de Zé Camandro, habitando na bairrista Alfama, onde nasceu e cresceu. Chama a atenção? Tanto quanto outro homem (ou adjectivo semelhante), que se passeie pelas ruas de camisa aos quadrados - que apesar do frio, está constantemente desapertada para mostrar o belo do cordão de ouro com o pendente do Cristo, ali atafulhado no meio do pelame do peito. O ouro combina como o belo do anel do brasão no dedo mindinho, que está igualmente adornado com uma unhaca sobredesenvolvida, apta para muitas funções, entre as quais desentupir os respectivos ouvidos, palitar os dentes e abrir os maços de SG Ventil.
Aos fins-de-semana, adopta o ar casual do fato de treino fluorescente, adquirido na tradicional feira do relógio, tão sintético que nem as nódoas de vinho carrascão bebidos ali na tasquinha do Flandres lhe pegam. Gosta de moelas e pezinhos de coentrada, é adepto do Benfica (sócio número 34) e pratica o nobre ofício de pedreiro.

Há quem diga que é casado e feliz, com a Joaquina Alípio, imponente mulher a dias, cujas medidas têm vindo a evoluir com os anos de casamento, assentando agora nos 44 de anca, bem delineados pela bata às flores que traz por cima do fato de treino de riscas e da bela da soca ortopédica, que as cruzes já se vão notando. Gosta de fados, do Pepe Rapazote e dos descontos da loja do chinês.