Friday, May 23, 2008

Dread, é a nha dama e o meu rebento

Soraia tentou a custo enfiar-se no vestido branco. Quanto mais Quina lhe empurrava as banhas para dentro da cinta, mais mamas saltavam do decote para fora, a pontos do vestido lhe ficar mais como cinto largo do que propriamente traje de cerimónia. Quina suspirava, pensando quando seria a vez de Soraia de atravessar a ala da Igreja de Santa Engrácia, vestida de véu e grinalda (mesmo sabendo que não correspondia totalmente à verdade), prenha de três meses e casada à pressa antes que a criança nascesse e o pai legítimo lhe negasse a paternidade, o abono de família e a pensão de alimentos. Desta era a melhor amiga de Soraia, a Tânia Andreia que se tinha envolvido com um tal de Titan Semedo, lá da Damaia. Titan era adorado por todas as catraias lá do bairro, com o seu charme africano, rádio tijolo em forma de telemóvel pendurado ao pescoço a tocar kizombada em alto volume, boné de marca enfiado às três pancadas na cabeça, porque a afro não deixava enfiar mais fundo, e o belo do téni de marca dread, de onde ressaltava o único ponto em comum com a macheza do bairro: a bela da peúga de raquete branca. Isso e o cheiro a macho. Em dias de Verão mais quentes, não havia ventoinha nem corrente de ar que competisse com o cheirinho que vinha rua abaixo, quando o 46 da Damaia largava a comitiva de visitantes no bairro, depois de ter percorrido Lisboa de uma ponta à outra sem ar condicionado nem janelas abertas. Nada comparável ao cheirinho a Old Spice, sovaco e cerveja que ressaltava do café do Manco.
Titan ficou fixado na Tânia Vanessa quando a viu nas festas do Santo António a tentar dançar uma kizomba ao ritmo de arrasta pé. A partir daí, ficaram colados um no outro, aumentando exponencialmente os lucros da TMN graças à quantidade arrasadora de SMS enviadas diariamente, que muitos consideraram ser algum tipo de código terrorista - isto porque a mãe de Tânia tinha por hábito ler-lhe as mensagens para ver se ela andava a corresponder-se com algum pedófilo, como mostram nas reportagens do Telejornal, mas a bem dizer nem o nome o rapaz ela conseguia pronunciar, estava sempre a chamá-lo de Tito ou de Tide, como o detergente, o que só ia piorar agora que o rapaz depois de casado vinha morar para o quarto da Tânia, onde já estavam a instalar o cesto de verga que iria servir de berço ao rebento. O único ainda em estado de choque era o pai de Tânia, porque quando a rapariga regressou da consulta doe planeamento familiar a que era obrigada a ir todos os meses por causa do Padre Júlio que dizia que era importante que as raparigas se informassem das vantagens em não aderir à pílula e ao uso de contraceptivos e disse ao pai que estava grávida de dois meses, e que o pai da criança era um...gajo da Damaia, Jaquim Taneco teve o seu primeiro ataque cardíaco, seguido de um violento ataque de diabetes, o que o levou em pânico para o café do Manco, a pedir uma dose da aguardente de medronho que o Manco só distribuia no Natal e nas festas da Senhora da Agonia, sua santa Padroeira. Duzentas e três SMS depois, Titan apresentou-se à porta de Tãnia, mais o resto da crew, assim como seus pais, oito tios, quinze primos e duas avós caquéticas que tinham sido exportadas de França pelos seus quatro filhos que lá trabalhavam para tratarem dos rituais necessários para o ajuntamento e amassar a farinha para o pirão da festa. Tinham chamado igualmente uns quantos primos distantes residentes ali em Chelas, de modo que a rua do bairro mais parecia Luanda em plena luz do dia, só faltando mesmo o Bonga e a Mariquinha. Jaquim Taneco não teve grandes hipóteses de retaliação, mas pediu pelo menos que o casamento fosse cristão, para que o seu primeiro neto nascesse bom católico e com fé na santa igreja. Depois de duas horas de reunião, quatro grades de mines e um arrasta pé, acedeu-se ao casamento católico, desde que depois as damas do funana pudessem vir ao terreiro abençoar os noivos e trocar o dote pelas cabras que haviam sido prometidas. Jaquim Taneco não percebeu bem esta das cabras, pensando que eram simplesmente uns borregos para o jantar da boda, pelo que combinou com o Chico do Talho arranjar um farnelzito para aquela gente toda levar depois lá para as festas deles.
Enquanto Titan passava duas horas do cabeleireiro a frisar cabelo e a besuntá-lo de óleo de coco para ficar luzidio - Tãnia chorava feita madalena porque não a tinha deixado usar o vestido parecido com o da Mariah Carey, como tinha aparecido na revista Caras, tendo que usar o vestido da mãe, que já tinha passado da avó, que cheirava a naftalina e tinha folhos que picavam desde os pés até à gola alta. Ao menos pode fazer o penteado da Beyonce, com aquelas tranças todas no alto, sustentadas por três doses de laca e fixador para móveis, embora tenha sido lixado tentar enfiar o véu no meio daquilo, que acabou por ficar seguro com pauzinhos de espetadas porque o chinês ainda estava fechado e não deu para comprar ganchos. Faltavam os sapatos que, segundo a tradição, tinham de ser emprestados, cedidos pela Gina do 4D, que em tempos tinha trabalhado na indústria cinematográfica (Cinebolso) e lhe emprestou umas lindas plataformas com saltos transparentes, para ela ficar do tamanho do Titan nas fotografias.

O meio dia aproximava-se, e eis que a família Semedo se aproximou da igreja de Santa Engrácia, luzidios e cheirosos a praia, com suas roupas garridas que mais pareciam bandeiras e cortinados, em contraste com os vestidos apertados e as echarpes amarelas da família Taneco, mais as pochetes, as gravatas de quadrados e o cheirinho a Brut que eliminou todas as moscas das redondezas. Titan entrou na igreja, e até o padre pensou que ele tinha algum defeito no andar, até perceber que ele e os companheiros simplesmente estavam a andar com estilo altar adentro, mais os telemoveis a tocar todos ao mesmo tempo, daquelas músicas maradas dos Irmãos Verdade. O padre fez vista grossa e toda a gente desligou os telefones, mas continuaram a mandar sms a ver onde andavam as damas de honor e a noiva. As damas de honor chegaram, todas vestidas de igual, vestidinho de cai cai adquirido na Bershka, mas parece que o desespero era grande porque tinham todas comprado o tamanho abaixo e a saia subia pernas acima, deixando ver parte do fio dental escabroso que todas tinham comprado de cor igual (rosa choque) ali no chinês da esquina. As sandálias também tinham sido patrocinadas pela Gina, de modo que só faltava mesmo a música adequada. Pena é que a Ti Manuela, que tocava o orgão da igreja, tinha desmaiado quando as viu entrar e entalou o nariz no teclado.

(to be continued)