Quina assoou-se novamente ao molho de kleenexes que tinha trazido da esteticista. A desgraça tinha-se abatido sob a rua, quem nem folhetim dramalhão do Eça de Queirós, com direito a facadas, incerto e sabe-se lá mais o quê.
A vizinha do direito - aquela quarentona enxuta que insistia em mostrar as ancas - assim como a celulite galopante, os furúnculos e as cuecas de gola alta que trazia por debaixo da micro saia - que muitos chamaram de cinto - tinha tido um desgosto amoroso. Ela, que passava a vida de janela a mirar os garotos que paravam em frente ao café do Manco, a ver algum deles lhe dava atenção, decidiu finalmente ir à luta e engatar um tipo para lhe tirar as teias de aranha. Ela, mulher rija e cheia de carnes, gostava muito de se vestir à moderna, com aqueles tops que pareciam tirados da filha mais nova - que era anorética e lisa que nem uma tábua de engomar, achava que ainda merecia viver a vida com jeito. Durante anos esteve casada com um inspector da ASAE, que lhe dava pancada todas as noites, quando vinha já alcoolizado das inspecções que fazia aos tascuns da zona, em que todos os dons lhe pagavam uns copos para ele não reparar nas baratas e nas datas passadas de prazo dos sumóis e dos caramelos Mouro, que não eram produzidos desde 1980. Chegada a viuvez - e o respectivo subsídio - o inspector foi atropelado por um camião com restos de carne que ia para a fábrica da cola, Alcina Rondeira decidiu aproveitar a vida. Começaram as rondas nas casas de fados, as noites à janela, os bailes e as quermesses da paróquia. Todos os miúdos do bairro passavam pela casa dela para lhe comer os bolos e a mousse de chocolate e saiam de lá sempre vermelhos e extenuados. Sempre saía mais barato do que visitar o botequim da Tina, ou dar um salto ao Cinebolso. Além disso, ela tinha o hábito de se despir com a luz acesa e a janela aberta, e era melhor do que ver os filmes do canal dezoito porque não estava codificado.
Até ao dia em que Alcina se envolveu com aquele stripper romeno que encontrou numa festa de aniversário de uma amiga igualmente libertina, e que decidiu albergar lá em casa porque o rapaz fazia uns ovos mexidos com chouriço que eram um mimo. Além de todos os outros favores que lhe ia fazendo. O Iuri, como toda a gente o conhecia lá na rua, cozinhava, passava a ferro, estendia e lavavas as escadas. Aí começou a ser a coqueluche das mulheres, pois era um gosto ver o rapazinho de rabo para o ar, sem camisa, a encerar as escadas do prédio.
Meses de escadas e ovos com chouriço depois, eis que passa uma Ford Transit branca cheia de ciganos à porta da casa de Alcina, de onde saiu uma família inteira mais os respectivos conjuges, afilhados e parentes afastados. Iuri era casado e tinha deixado a mulher na Roménia. Vai daí, ela veio ter com ele, e como é hábito lá, tem de trazer o resto da família. Borisina, de corpo quadrado (rectangular?), mamas com identidade própria e bigode igual ao do pai (excepto a verruga que tinha no queixo), vestida na sua bata de flores surrenta, com as suas peúgas de lã verde garrafa e um puto ranhoso pendurado à cintura, sorriu com os únicos dois dentes que lhe sobravam ao ver Iuri. Atrás dela, a família - que mais pareciam os Gipsy Kings em fim de linha - começou a desrolhar as garrafas de aguardente e a montar a tenda para dormir por ali, no meio da rua.
Foi quando Alcina apareceu e pôs a mão no ombro de Iuri - o rabo estava inacessível para lhe dar palmadas. Borisina, cheirando à distância a traição, mandou as crianças roubar relógios aos velhos do jardim, e pôs o patriarca ao corrente da situação. Alcina, com ar surpreendido, olhou para a família e deu dois passos atrás, a tempo de se desviar da primeira estalada de Borisina. Mas como não era mulher para se ficar atrás, e puxou da chinela para ir à luta.
(continua)
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