Saturday, July 28, 2007

Thursday, July 26, 2007

Jean Richard, en vacances

Quina ajeitou pela enésima vez a bata de flores e sacudiu as moscas que pousavam tontas no parapeito da janela, ou pelo calor ou pelo excesso de Old Spice que pairava no ar. Era já tempo da sua irmã Aurélia das Dores vir de vacances a casa, como fazia todos os anos desde que tinha emigrado para França, em busca de menos trabalho e mais ordenado, levando a reboque o seu marido João Ricardo, cujos anos e aculturação tinham tornado em Jean Richard.

Ao longe avistava-se já a velha catrela branca, com uma nuvem de fumo atrás capaz de fazer inveja a qualquer autocarro da Carris, antes de terem tido esta ideia de fazer combustível do oleo de fritar as batatas, que faz com que toda a gente saia do autocarro com um cheiro característico a petinga, em que só falta o arroz de grelos e o verde lagosta. Aurélia já botava a cabeça de fora em busca de Quina, enquanto Zé Camandro, pressentindo o reencontro anual com o pançudo do cunhado, se refugiava no café do Manco a ver os jogos da liga da Albânia na Sport TV.

Quina e Aurélia abraçaram-se efusivamente, bata de flores para um lado, camiseiro de 100% viscose para o outro, sacos de plástico do carrefour de Lyon rua abaixo, mais as crianças a olharem umas para as outras com ar de desconfiado, a ver que tinha a PSP mais colorida. No meio disto tudo, Jean Richard tentava sair detrás do volante, que insistia em manter-se na mesma posição, ao contrário da barriga do Jean. Tentando dar uma de Alain Delon - se bem que por aquelas paragens, de França, somente o Petit e os "croissantes" à venda no Pingo Doce. Ele bem se tentava impor com as suas camisas lacoste e ténis Le Coq Sportif, mas esquecia-se que já há muito que o 25 de Abril tinha aberto as fronteiras e o que agora estava a dar eram as camisas Sacoor e os mocassins Dutti - se bem que, ali pelo bairro, continuava mesmo era a dar a camisa desabotoada até meio, os sapatinhos de borla mais a peúga da raquete, e o característico cheiro a Old Spice. O bigode porém mantinha-se, em ambas as facções, com mais ou menos restos de comida do almoço, e mais ou menos amarelo, conforme se fumasse SG Ventil ou Português Suave. Que, com o Jean Richard era mais Gauloises, o que fazia que não se parecesse tanto com o Alain Delon, mas mais com o a Edith Piaf em final de noite, já traçada com dois ou três cognacs.

Aurélia porém, mantinha a mesma pose desde que se tinha ido embora: a mesma permanente temperada com vários tons de louro, desde o descolorado ao ar de queimado em demasia. As mesmas camisas floridas de 100% viscose, que dantes eram compradas nos Armazéns do Conde Barão, agora disponíveis em qualquer loja do chinês, por preços igualmente apetecíveis, com tamanhos a partir do 46. Unhas impecavelmente pintadas de vermelho vivo - mas só ao sábado à tarde, quando iam à manicura. Depois disso acabavam irremediavelmente manchadas e descoloridas, assim que punha as mãos no detergente para lavar o chão. O belo do chanato bicudo com um pouco de salto, uma chinela assim a dar para o fino, modelo que entrou em voga no verão de 2003, e que caiu rapidamente em desuso entre a maior parte das classes, excepto um sem número de mulheres do povo, que insistem em mostrar os calcanhares ressequidos, argumentando que uma chinela destas dá um ar de fina e dá jeito porque assim não se vêem os joanetes, mas por outro lado esquecem-se que passam a vida a encravar os saltos nas pedras soltas da calçada.

Jeanette e Michel André (não, este nasceu antes do famoso dueto com o mesmo nome, pelo que é mera coincidência), os rebentos do casal, levantaram os olhos das respectivas PSPs, tiraram um dos fones do leitor de mp3 do ouvido, pararam por solenes momentos de mascar pastilha com a boca aberta para olharem em redor e suspirar profundamente. Continuavam sem perceber porque motivo tinham de vir de férias a este país, onde eram obrigados a ler as legendas dos filmes, a ver desenhos animandos do canal Panda e a comer sardinhas com faca e garfo para mostrar que eram meninos de bom tom, criados em colégios de classe. Soraia e Márcio olhavam para os primos de lado, a pensar que eram mais quinze dias a partilhar o quarto com aqueles dois mastronços que nem falar a direito sabiam, quanto mais fazer a cama e arrumar os sapatos. De modo que sairam de mansinho, mandaram sms ao Mussulo e daí a pouco este estava a bater a porta, a dizer que havia festa no Bleza, e que vinha buscar a Soraia para um pé de dança. Jeanette, ao ver o volume do rapaz (que nada mais era que o telemovel tijolo - que até restos de cimento e tinta tinha colados), ficou logo impressionada e decidiu pela primeira vez colar-se à prima com ar simpática e dizer que também gostava de ir sair. É que Aurélia raramente lhe dava azo a esses passeios - queria que ela se mantivesse pura até ao casamento que tinha endrominado mais uma comadre que era porteira no prédio vizinho no bairro onde viva, a ver se a ajeitava com o filho da respectiva, um tal de Jones, aprendiz de mecânico - o jeito de mãos compensava os dentes a menos. Mas como a rapariga estava de vacances...lá a deixou ir.

Jean Richard ficou tão verde que até parecia um adepto do Sporting.