Friday, March 16, 2007

xi, que isto vai dar molho

Borisina fez o seu olhar de mulher traída...e partiu para a porrada. Que isto de meter a mão no marido dos outros é ofensa corporal, mortal e única: quem a fazer não volta a viver para mais.

Alcina não se fez rogada, mas também não viu com bons olhos uma estadia no hospital a tomar sopa por uma palhinha.

Virou-se para Borisina, com a mostarda no nariz, mas com a bandeira branca da paz. Borisina não foi nessa, e descalçou o chanato para lhe arrear umas quantas naquele lombo. Iuri, causa assumida da disputa, aproveitou o momento de silêncio para agarrar no balde e na esfregona e sair de mansinho...mas o patriarca/sogro apanhou-o pelo cachaço e enfiou-o dentro da carrinha, onde os dois primos distantes (em 34.º grau por parte da tia Slava - a de bigode louro - convém especificar a cor do bigode, dado que a maioria das romenas tem como característica assumida o farto bigode, engrossado a toques de gilette ferrugenta), casada duas vezes. Esses dois primos padeciam de falta de masculinidade, motivo pelo qual os decidiram exportar da Roménia, uma vez que tinham mais interesse em andar lavados e bem vestidos do que dar porrada nas esposas e a cuspir para o chão. Dado que Iuri sempre foi um pedaço de homem - ainda tinha os dentes todos e fazia a barba de semana a semana - o patriarca achou que precisava de uma lição e lá foi ele conhecer mais um lado negro da vida.

Entretanto, Borisina já tinha agarrado Alcina pelos cabelos e estava a fazê-la provar o sabão azul e branco do balde de lavar o chão. Todo o mulherio já gritava e ameaçava chamar a polícia, mas como ninguém tinha Alcina em boa conta, ninguém se lembrava bem do número da esquadra da GNR que ficava na rua de baixo. Quanto aos poucos machos existentes àquela hora na rua - tinha ido tudo ver os treinos de futebol dos Passarinhos de Xabregas, no descampado onde costumam fazer os bailes e desmontar os carros roubados - ficaram subitamente fascinados pelo Fiat 127 que o Toni Rater
estava a desmontar lá na oficina dele, e evaporaram-se.

Borisina achou que estava na hora de trocar de método de tortura (tinha acabado de ver uma vassoura encostada à parede), quando arrancou a cabeça de Alcina do balde, e eis senão quando lhe salta do pescoço uma medalha do Tony Carreira, autografada e tudo. Daquelas brilhantes, fluorescentes, só faltava mesmo a música "sonhador" para o toque final brega. Foi quando Borisina reparou que até as cuecas de gola alta da Alcina traziam estampadas a imagem do ídolo, do galã, desse poço de virtudes e voz maviosa que é o Tony. Alcina caiu no chão, ainda a deitar bolas de sabão da
boca, enquanto Borisina se afadigava a desabotoar a bata e a mostrar a tshirt meio sebosa que trazia por baixo, com a imagem do ídolo, e a data da sua tournée na Roménia, ainda a fazer de parte inicial ao Toy, numas férias de verão dos idos anos 80. Alcina começou de repente a entoar o "depois de ti mais nada", rapidamente acompanhada por Borisina, no seu tradicional sotaque romeno. O patriarca puxou então da viola que tinha roubado algures em Espanha, a um grupo de ciganos, e acompanhou-as em tom de fundo, enquanto todas as mulheres suspiravam ao lembrar-se do ídolo, que
quando era pequenote tinha passado uns tempos ali na casa de uma tia avó, nas férias da escola. Já nessa altura, mesmo garoto, encantava a maioria das mulheres, quando decidia imitar o Marco Paulo ou o Vitor Espadinha, nas festas da quermesse da igreja.

Terminada a música, Borisina sorriu para Alcina, voltou a calçar os chanatos e a abotoar a bata. Alcina, num gesto cordial, tirou do pescoço a medalha, e qual oferenda de paz, du-a a Borisina, que se desfez em agradecimentos. Acenou a um dos primos, que puxou de um saco preto que trazia na bagageira da carrinha, e ofereceu a Alcina a colecção de DVD's dos concertos do Tony Carreira. Aí se selou uma amizade e a paz foi finalmente estabelecida. Alcina convidou inclusive Borisina e a família lá para casa, onde poderiam ficar o tempo que quisessem.

Foi quando o patriarca se apercebeu do silêncio dentro da carrinha e reparou que nem os dois primos, nem Iuri lá estavam. Homem desonrado não é recordado, de modo que foi de comum acordo que se eliminasse Iuri e os primos da árvore da família, e Borisina, alegre viúva, tentaria começar de novo a vida. O patriarca decidiu então que estava feita justiça, e acartou o resto do contrabando que tinha...adquirido na Feira do Relógio, e decidiu voltar à Roménia para os vender. Borisina, com a sua autorização, ficaria em Portugal, onde melhores condições de vida a esperavam, e onde poderia fazer uma carreira fulgurante de mulher a dias, e talvez um dia poder alugar uma casa com móveis.

Alcina e Borisina viveram felizes no mesmo lar durante anos, partilhando das mesmas batas às flores e dos rolos na cabeça, e da sua paixão por Tony Carreira. Aos fins de semana arrancavam para as tournés, e durante a semana limpavam os escritórios na Baixa, onde aproveitavam também para entreter os seguranças da noite com as suas fardas pingonas e as suas chinelas ortopédicas. Nunca mais homem se viu naquela casa, como se a paixão e os valores do casamento se tivessem eclipsado. Embora de vez em quando se ouvissem uns barulhos de uma qualquer geringonça vibratória e meia dúzia de suspiros, que todos admitiam ser derivado dos DVDs do Tony Carreira.

Quanto a Iuri, era frequentemente visto no Bairro Alto, sempre de braço dado com dois tipos que pareciam saídos daquela banda, os Village People. Mas nunca mais se atreveu a entrar no bairro.

1 comment:

Sáurius said...

BB, atão abandonaste-me? fiquei a espera "Xi que o gajo não quer nada com'eu" :) na boua tudo se resolve!