Sábado chegou, e Zé Camandro tirou o cachecol do glorioso do louçeiro de vidro e sacudiu as bolas de naftalina. É dia de jogo da taça, e há que ir vestido a rigor. Com o seu cartão de sócio já gasto nas pontas de tanto o tirar da carteira para mostrar aos amigos do café - e cujas quotas não paga desde que se registou em 1967 - Zé Camandro rumou ao café do Manco, onde se tinham reunido todos os adeptos benfiquistas do bairro, desde que o projecto da casa do Benfica foi embargado porque o Zé Calceteiro se afiambrou aos tijolos para construir uma casa ali na Fonte da Telha, para passar as férias - isto porque lhe roubaram a roulotte que tinha no parque de Campismo da Orbitur. Depois disso, alugou-a a vinte e cinco brasucas que lá vivem felizes e contentes, fazendo a tristeza das mulheres do parque de campismo - porque as brasileiras levam mais barato - e por isso mesmo, a alegria dos restantes visitantes masculinos. Quanto ao cimento, serviu para construir uns tanques de lavar a roupa, que estas modernices de máquinas de lavar a roupa não são para gente humilde. Além disso, no verão, dão muito bem para os putos chapinharem, em vez de se estar a pagar balúrdios de dinheiro pela colónia de férias em santo amaro de oeiras.
Já o grelhador - isto depois do Zé Manco lhe ter dado umas bordoadas no candeeiro para sacudir o sabor das sardinhas grelhadas no dia anterior - estava quentinho. Note-se que tinha sido feito a partir de um bidon subtraído à bomba de gasolina, mais umas grades que tinha arrancado da escola primária - sim, porque agora os miúdos não precisam de grades, com a polícia sempre a rondar ali à volta. O alguidar de couratos - alguns deles ainda com pelo e com o respectivo carimbo de origem - estava temperado e pronto a ser consumido. Já dizia o Zé Manco, "comer coourato com pelo é como comer uma alemã".
Começou o jogo na televisão, uma boa telefunken a preto e branco - estava mais para o amarelo por causa do fumo de tanto SG Ventil que ali dentro se fumava. O belo do naperon branco por cima, para evitar as nódoas das moscas que morriam electrocutadas - também morriam umas quantas no papel mata moscas, mas isso não dava muito resultado porque havia quem costumasse usar o papel para apagar as beatas. Começou o despique da mine, mais a bela da carcaça com courato. Para os mais saudáveis, havia tramoços e minuins.
Corriam os habituais bitaites acerca do desempenho dos 22 coxos que andavam a pastar na relva, mais o mariconço de preto que queria tocar o pifaro a quem se metesse à frente, quando o Manco decidiu inaugurar uma garrafita de aguardente que lá tinha guardada desde o tempo do avô, que era contrabandista ali em Sacavém, a passar uisque para água e álcool, nos tempos da greve dos comboios.
Vai de copo de três para todos quando chegaram ao intervalo. Foi então que todos se levantaram ao mesmo tempo para ir mudar a água às azeitonas, e não havia urinóis que chegassem, de modos que foi tudo enfeitar a parede traseira do café. Mas...aquilo era mais do que água...
E desatou tudo a correr para casa...
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
No comments:
Post a Comment