O vento soprava e fazia abanar a porta da frente, o que lembrou Quina de chamar mais uma vez a atenção de Zé para ver se ele finalmente arranjava aquele vidro da frente, em vez de substituir regularmente o recorte dalguma notícia gloriosa do Benfica - o que se tornava cada vez mais raro, de modo que o recorte já estava a ficar amarelecido. Foi então que alguém bateu na porta, o que fez Zé resmungar, pensando que era mais um comercial da TV Cabo a perguntar se ele queria ser assinante, e lá tinha ele que esconder a puxada que tinha feito do 3F. Lá desligou a TV Sport, e foi direito à porta, esperançoso que fosse uma testemunha de Jeová que ele pudesse espantar com a o seu ar de muçulmano recém convertido, desde que tinha decidido deixar crescer a barba, para ficar parecido com o Harrisson Ford no último filme do Indiana Jones, se bem que ficou mais parecido com o Bin Laden, esperando apenas pelo subsídio de desemprego para poder comprar uma máquina de cortar cabelo na loja dos chineses, já que a Soraia tinha dado cabo da última a fazer a depilação das costas do namorado para o concurso de Macho Latino Alfamense 2007.
Tal não foi o seu espanto quando abriu a porta e deu de caras com a prima Sãozinha que se pensava, segundo o que o marido tinha dito, ter emigrado durante alguns meses para as plantações de morangos na Inglaterra, onde contava arranjar dinheiro suficiente para uma rulote no parque de campismo de Monsanto, já que na Caparica só haveria vagas em 2035, quando conseguissem recuperar mais dois metros de areia. Sãozinha estava igual ao que sempre era, excepto um estranho cheiro a feno e umas peúgas com borlas de lã, estranhamente quentes para esta altura do ano, em que já se tinham trocado os chanatos forrados e as peúgas de lã cardada por uns crocs arejados e umas mini meias pelo joelho, ali mesmo por baixo da bainha da bata pingona. O cabelo não tinha madeixas de qualquer coisa, e não havia sequer vestígio de manchas de verniz nas mãos. Ao vê-la, Quina ficou rapidamente de sobreaviso, como se algo tivesse acontecido à prima. Não hesitou em fazê-la entrar, deu-lhe uma chávena de Mokambo e duas bolachas maria, para ver se a mulher se recompunha. Finalmente, Sãozinha olhou para Quina com ar assustado e começou a contar a sua história. Era bem verdade que tinha emigrado para Inglaterra para trabalhar nas plantações de morangos, mas quando lá chegou, viu que tinha sido levada a um embuste. Na realidade, ela e mais um bando de mulheres de Viseu tinham sido trazidas para aquela terra de ninguém como escravas, mulheres da limpeza, de bata às flores e chanato gasto, para andarem ali a limpar escritórios e despejar caixotes no lixo.
Quando sairam do autocarro que as tinha levado, foram largadas num barracão cinzento, cheio de beliches alinhados e um cabide enorme lá no fundo, que tinha tantas batas penduradas como a barraca de um cigano na feira do relógio, mais uma colecção impressionante de alpergatas, chinelos ortopédicos e. para os pés mais sensíveis, Drs. Scholls made in China. Sãozinha deu-se por impressionada, ainda que desconfiada, afinal não era preciso tanto aprumo para apanhar morangos, sabe bem que para a apanha da cebola lá nos campos da cunhada anda de fato de treino, e se preciso roto que é para arejar o suor. O patrão fez olhar duro e deu ordem para o jantar e deitar cedo, que o dia de amanhã começava cedo. Cada uma puxou da sua saca de pão e do chouriço, enquanto outras desrolhavam o tinto e as azeitonas. Depois de uma refeição leve, começou tudo a olhar em volta, a ver onde se encontrava o micro ondas para aquecer o Mokambo para se comer enquanto se via a novela. Mas como não havia televisão, ficaram a ler os resumos na Maria e na Ana Atrevida, até dar o sono. Á seis da manhã do dia seguinte estava toda a gente a pé, a escolher batas e chanatos, à espera do patrão para as levarem. Foram novamente enfiadas no autocarro, mas em vez de serem levadas para algum campo agrícola, tal não é o seu espanto quando são postas num edíficio cinzento, cheio de secretárias e caixotes para despejar. E é aí que o patrão se vira para elas, e lhes explica que basicamente, elas estão ali para limpar e para se mostrarem. Isto era uma rede intricada. Os eslavos, marroquinos, indianos até mesmo portugueses emigrados em Londres tinham uma profunda saudade das suas mulheres, na sua maioria gente rude do povo, mulheres a dias, de formas generosas. As prostitutas e os engates habituais estavam fora de questão - porque estavam tanto fora das medidas como das competências - assim como era impensável trazê-las para aquele ambiente, ou ficaram contaminadas - ou seja, magras e bem vestidas. Logo, a opção era exportá-las, a título temporário, quase como uso descartável, para fazer o gosto ao dedo. Só que desta a coisa correu mal, porque se haviam mulheres ferrenhas e defensivas dos seus maridos e filhos, eram as mulheres de Viseu. E ao verem-se a ser servidas, feitas brasileiras dengosas oferecidas, pecaminosas aos olhos de Deus, nada mais fizerem. Benzeram-se, puxaram das esfregonas e das vassouras, e decidiram limpar o sebo àqueles tipos todos, coisa que os deixou mansinhos em menos de um fósforo, tal não eram a quantidade de emoções recalcadas e as saudades das chineladas das mães. Adérita, viúva temerosa a Deus mas consciente da oportunidade de negócio, desde logo teve mão naqueles mânfios, e decidiu ficar para trás para começar uma nova vida, agora que os quatro filhos estavam todos criados e à mercê das respectivas mulheres. Quanto às restantes, arranjou-lhes um farnel de ovos com chouriço, distribuiu os lucros irmamente, deu um calduço ao motorista e disse-lhe que se não voltasse a tempo e horas, que lhe cortava o Ucal do pequeno almoço durante uma semana.
Sãozinha respirou fundo quando acabou, Quina estava horrorizada, enquanto Zé Camandro explorava as percentagens de negócio e a possibilidade de se tornar comercial da empresa, dado que Sãozinha tencionava desistir da ideia da rulote - afinal já andava empatada com um time sharing em Albufeira, onde podia passar três dias e meio por ano, não consecutivos - e abrir uma empresa de exportação de talentos, dando a mulheres viúvas e inactivas a possibilidade de terem de novo uma vida activa e estimulante, em funções do seu agrado. Quina fez as contas aos dias de férias que teria este ano...enquanto puxava de um chinelo para arrear no Márcio por não ter feito a cama outra vez.
Sunday, June 1, 2008
Friday, May 23, 2008
Dread, é a nha dama e o meu rebento
Soraia tentou a custo enfiar-se no vestido branco. Quanto mais Quina lhe empurrava as banhas para dentro da cinta, mais mamas saltavam do decote para fora, a pontos do vestido lhe ficar mais como cinto largo do que propriamente traje de cerimónia. Quina suspirava, pensando quando seria a vez de Soraia de atravessar a ala da Igreja de Santa Engrácia, vestida de véu e grinalda (mesmo sabendo que não correspondia totalmente à verdade), prenha de três meses e casada à pressa antes que a criança nascesse e o pai legítimo lhe negasse a paternidade, o abono de família e a pensão de alimentos. Desta era a melhor amiga de Soraia, a Tânia Andreia que se tinha envolvido com um tal de Titan Semedo, lá da Damaia. Titan era adorado por todas as catraias lá do bairro, com o seu charme africano, rádio tijolo em forma de telemóvel pendurado ao pescoço a tocar kizombada em alto volume, boné de marca enfiado às três pancadas na cabeça, porque a afro não deixava enfiar mais fundo, e o belo do téni de marca dread, de onde ressaltava o único ponto em comum com a macheza do bairro: a bela da peúga de raquete branca. Isso e o cheiro a macho. Em dias de Verão mais quentes, não havia ventoinha nem corrente de ar que competisse com o cheirinho que vinha rua abaixo, quando o 46 da Damaia largava a comitiva de visitantes no bairro, depois de ter percorrido Lisboa de uma ponta à outra sem ar condicionado nem janelas abertas. Nada comparável ao cheirinho a Old Spice, sovaco e cerveja que ressaltava do café do Manco.
Titan ficou fixado na Tânia Vanessa quando a viu nas festas do Santo António a tentar dançar uma kizomba ao ritmo de arrasta pé. A partir daí, ficaram colados um no outro, aumentando exponencialmente os lucros da TMN graças à quantidade arrasadora de SMS enviadas diariamente, que muitos consideraram ser algum tipo de código terrorista - isto porque a mãe de Tânia tinha por hábito ler-lhe as mensagens para ver se ela andava a corresponder-se com algum pedófilo, como mostram nas reportagens do Telejornal, mas a bem dizer nem o nome o rapaz ela conseguia pronunciar, estava sempre a chamá-lo de Tito ou de Tide, como o detergente, o que só ia piorar agora que o rapaz depois de casado vinha morar para o quarto da Tânia, onde já estavam a instalar o cesto de verga que iria servir de berço ao rebento. O único ainda em estado de choque era o pai de Tânia, porque quando a rapariga regressou da consulta doe planeamento familiar a que era obrigada a ir todos os meses por causa do Padre Júlio que dizia que era importante que as raparigas se informassem das vantagens em não aderir à pílula e ao uso de contraceptivos e disse ao pai que estava grávida de dois meses, e que o pai da criança era um...gajo da Damaia, Jaquim Taneco teve o seu primeiro ataque cardíaco, seguido de um violento ataque de diabetes, o que o levou em pânico para o café do Manco, a pedir uma dose da aguardente de medronho que o Manco só distribuia no Natal e nas festas da Senhora da Agonia, sua santa Padroeira. Duzentas e três SMS depois, Titan apresentou-se à porta de Tãnia, mais o resto da crew, assim como seus pais, oito tios, quinze primos e duas avós caquéticas que tinham sido exportadas de França pelos seus quatro filhos que lá trabalhavam para tratarem dos rituais necessários para o ajuntamento e amassar a farinha para o pirão da festa. Tinham chamado igualmente uns quantos primos distantes residentes ali em Chelas, de modo que a rua do bairro mais parecia Luanda em plena luz do dia, só faltando mesmo o Bonga e a Mariquinha. Jaquim Taneco não teve grandes hipóteses de retaliação, mas pediu pelo menos que o casamento fosse cristão, para que o seu primeiro neto nascesse bom católico e com fé na santa igreja. Depois de duas horas de reunião, quatro grades de mines e um arrasta pé, acedeu-se ao casamento católico, desde que depois as damas do funana pudessem vir ao terreiro abençoar os noivos e trocar o dote pelas cabras que haviam sido prometidas. Jaquim Taneco não percebeu bem esta das cabras, pensando que eram simplesmente uns borregos para o jantar da boda, pelo que combinou com o Chico do Talho arranjar um farnelzito para aquela gente toda levar depois lá para as festas deles.
Enquanto Titan passava duas horas do cabeleireiro a frisar cabelo e a besuntá-lo de óleo de coco para ficar luzidio - Tãnia chorava feita madalena porque não a tinha deixado usar o vestido parecido com o da Mariah Carey, como tinha aparecido na revista Caras, tendo que usar o vestido da mãe, que já tinha passado da avó, que cheirava a naftalina e tinha folhos que picavam desde os pés até à gola alta. Ao menos pode fazer o penteado da Beyonce, com aquelas tranças todas no alto, sustentadas por três doses de laca e fixador para móveis, embora tenha sido lixado tentar enfiar o véu no meio daquilo, que acabou por ficar seguro com pauzinhos de espetadas porque o chinês ainda estava fechado e não deu para comprar ganchos. Faltavam os sapatos que, segundo a tradição, tinham de ser emprestados, cedidos pela Gina do 4D, que em tempos tinha trabalhado na indústria cinematográfica (Cinebolso) e lhe emprestou umas lindas plataformas com saltos transparentes, para ela ficar do tamanho do Titan nas fotografias.
O meio dia aproximava-se, e eis que a família Semedo se aproximou da igreja de Santa Engrácia, luzidios e cheirosos a praia, com suas roupas garridas que mais pareciam bandeiras e cortinados, em contraste com os vestidos apertados e as echarpes amarelas da família Taneco, mais as pochetes, as gravatas de quadrados e o cheirinho a Brut que eliminou todas as moscas das redondezas. Titan entrou na igreja, e até o padre pensou que ele tinha algum defeito no andar, até perceber que ele e os companheiros simplesmente estavam a andar com estilo altar adentro, mais os telemoveis a tocar todos ao mesmo tempo, daquelas músicas maradas dos Irmãos Verdade. O padre fez vista grossa e toda a gente desligou os telefones, mas continuaram a mandar sms a ver onde andavam as damas de honor e a noiva. As damas de honor chegaram, todas vestidas de igual, vestidinho de cai cai adquirido na Bershka, mas parece que o desespero era grande porque tinham todas comprado o tamanho abaixo e a saia subia pernas acima, deixando ver parte do fio dental escabroso que todas tinham comprado de cor igual (rosa choque) ali no chinês da esquina. As sandálias também tinham sido patrocinadas pela Gina, de modo que só faltava mesmo a música adequada. Pena é que a Ti Manuela, que tocava o orgão da igreja, tinha desmaiado quando as viu entrar e entalou o nariz no teclado.
(to be continued)
Titan ficou fixado na Tânia Vanessa quando a viu nas festas do Santo António a tentar dançar uma kizomba ao ritmo de arrasta pé. A partir daí, ficaram colados um no outro, aumentando exponencialmente os lucros da TMN graças à quantidade arrasadora de SMS enviadas diariamente, que muitos consideraram ser algum tipo de código terrorista - isto porque a mãe de Tânia tinha por hábito ler-lhe as mensagens para ver se ela andava a corresponder-se com algum pedófilo, como mostram nas reportagens do Telejornal, mas a bem dizer nem o nome o rapaz ela conseguia pronunciar, estava sempre a chamá-lo de Tito ou de Tide, como o detergente, o que só ia piorar agora que o rapaz depois de casado vinha morar para o quarto da Tânia, onde já estavam a instalar o cesto de verga que iria servir de berço ao rebento. O único ainda em estado de choque era o pai de Tânia, porque quando a rapariga regressou da consulta doe planeamento familiar a que era obrigada a ir todos os meses por causa do Padre Júlio que dizia que era importante que as raparigas se informassem das vantagens em não aderir à pílula e ao uso de contraceptivos e disse ao pai que estava grávida de dois meses, e que o pai da criança era um...gajo da Damaia, Jaquim Taneco teve o seu primeiro ataque cardíaco, seguido de um violento ataque de diabetes, o que o levou em pânico para o café do Manco, a pedir uma dose da aguardente de medronho que o Manco só distribuia no Natal e nas festas da Senhora da Agonia, sua santa Padroeira. Duzentas e três SMS depois, Titan apresentou-se à porta de Tãnia, mais o resto da crew, assim como seus pais, oito tios, quinze primos e duas avós caquéticas que tinham sido exportadas de França pelos seus quatro filhos que lá trabalhavam para tratarem dos rituais necessários para o ajuntamento e amassar a farinha para o pirão da festa. Tinham chamado igualmente uns quantos primos distantes residentes ali em Chelas, de modo que a rua do bairro mais parecia Luanda em plena luz do dia, só faltando mesmo o Bonga e a Mariquinha. Jaquim Taneco não teve grandes hipóteses de retaliação, mas pediu pelo menos que o casamento fosse cristão, para que o seu primeiro neto nascesse bom católico e com fé na santa igreja. Depois de duas horas de reunião, quatro grades de mines e um arrasta pé, acedeu-se ao casamento católico, desde que depois as damas do funana pudessem vir ao terreiro abençoar os noivos e trocar o dote pelas cabras que haviam sido prometidas. Jaquim Taneco não percebeu bem esta das cabras, pensando que eram simplesmente uns borregos para o jantar da boda, pelo que combinou com o Chico do Talho arranjar um farnelzito para aquela gente toda levar depois lá para as festas deles.
Enquanto Titan passava duas horas do cabeleireiro a frisar cabelo e a besuntá-lo de óleo de coco para ficar luzidio - Tãnia chorava feita madalena porque não a tinha deixado usar o vestido parecido com o da Mariah Carey, como tinha aparecido na revista Caras, tendo que usar o vestido da mãe, que já tinha passado da avó, que cheirava a naftalina e tinha folhos que picavam desde os pés até à gola alta. Ao menos pode fazer o penteado da Beyonce, com aquelas tranças todas no alto, sustentadas por três doses de laca e fixador para móveis, embora tenha sido lixado tentar enfiar o véu no meio daquilo, que acabou por ficar seguro com pauzinhos de espetadas porque o chinês ainda estava fechado e não deu para comprar ganchos. Faltavam os sapatos que, segundo a tradição, tinham de ser emprestados, cedidos pela Gina do 4D, que em tempos tinha trabalhado na indústria cinematográfica (Cinebolso) e lhe emprestou umas lindas plataformas com saltos transparentes, para ela ficar do tamanho do Titan nas fotografias.
O meio dia aproximava-se, e eis que a família Semedo se aproximou da igreja de Santa Engrácia, luzidios e cheirosos a praia, com suas roupas garridas que mais pareciam bandeiras e cortinados, em contraste com os vestidos apertados e as echarpes amarelas da família Taneco, mais as pochetes, as gravatas de quadrados e o cheirinho a Brut que eliminou todas as moscas das redondezas. Titan entrou na igreja, e até o padre pensou que ele tinha algum defeito no andar, até perceber que ele e os companheiros simplesmente estavam a andar com estilo altar adentro, mais os telemoveis a tocar todos ao mesmo tempo, daquelas músicas maradas dos Irmãos Verdade. O padre fez vista grossa e toda a gente desligou os telefones, mas continuaram a mandar sms a ver onde andavam as damas de honor e a noiva. As damas de honor chegaram, todas vestidas de igual, vestidinho de cai cai adquirido na Bershka, mas parece que o desespero era grande porque tinham todas comprado o tamanho abaixo e a saia subia pernas acima, deixando ver parte do fio dental escabroso que todas tinham comprado de cor igual (rosa choque) ali no chinês da esquina. As sandálias também tinham sido patrocinadas pela Gina, de modo que só faltava mesmo a música adequada. Pena é que a Ti Manuela, que tocava o orgão da igreja, tinha desmaiado quando as viu entrar e entalou o nariz no teclado.
(to be continued)
Sunday, April 20, 2008
Sunday, March 23, 2008
há festa na aldeia
O mercedes deu o seu habitual estouro, anunciando-se no adro com a sua habitual cortina de fumo. O escape exalou o seu último suspiro, sobrepondo-se ao som da música pimba que saia dos holofotes, e estourou sem pejo nem vergonha. Tinham chegado à Pielas de Baixo, terra natal de Quina, para a habitual festança da Páscoa. O que significava comes e bebes, matança de um qualquer animal, chinquilho, banda, procissão e uma cartada ou outra pelo meio. Zé e Quina apearam-se do carro, sacudindo a poeira do caminho, e logo do alto da casa de pedra cinzenta assumou uma figura de preto e com um bigode mais farfalhudo que o de Quim. Era a ti Natália, matriarca da família, que nunca tinha perdoado a Quina ter migrado para a cidade, em vez de ter ficado por ali como pastora e esposa do João Tamanco, exímio sapateiro da aldeia, apesar do seu olho de vidro e do seu daltonismo. Deus nos livre e guarde das tormentas, benzeu-se, ao olhar para o casal e os respectivos rebentos, ainda enfiados no banco de trás a teclar nos respectivos telemóveis - ou pelo menos a tentar, porque a última antena tinha ficado a trinta quilómetros de distância. Atrás de si vinha o seu Jaquim, espécime conservado em aguardente caseira e tabaco de barbas de milho, que fumava desde os dez anos, altura em que seu avô o tinha mandado trabalhar para os campos, a lavrar terra e cavar batatas. Era tão enrugadinho que de vez em quando enganava-se e tentava fumar o próprio dedo, que de tão castanho que estava já parecia em si um cigarro. Natália e Quim casaram-se com dezasseis anos, e tiveram onze filhos, ao contrário da sua irmã Rosinda, que casou casou com um cabo da GNR, tendo Quina nascido prematura de sete meses, logo depois da boda, e só teve mais quatro irmãos, que partilhava entre si a gestão da taberna e da casa do povo lá da terra.
Pielas de Baixo era famosa nas redondezas pela sua procissão, acompanhada ao toque da banda, e que passava por todas as casas do povoado para beber um copo de aguardente em honra do santo padroeiro. Escusado será dizer que a procissão só terminava quando o último dos membros da banda parasse de tocar devido ao avançado estado de alcolismo, tendo o mesmo que carregar o santo até ao adro sozinho, para depois poder beber da garrafa de aguardente de reserva que o pároco guardava na sacristia para aquela ocasião. Este ano, os organizadores tinham decidido animar um pouco mais a festa, decidindo fazer um baile animado pela grande acordeonista Samandra, vinda de Algodres de Cima, cuja fama como música diziam advir dos seus dotes...ahem...peitorais, que sustinham em si uma enorme caixa de ar. Publicidade lançada pelo seu manager, André Rosquinha, que fazia igualmente essa função para o grandioso grupo de baile, Los Hermanos Maritos, que também davam uma perninha como equilibristas no circo Chene.
A ti Natália já tinha posto a mesa no quintal para a família, estavam apenas esperando que o pároco chegasse. Tinha estado a arear as pratas para a missa e a provar da aguardente para avaliar o estado da mesma, motivo pelo qual já vinha cantando o Requiem em passo mais apressado do que o habitual. Assim que viu a chouriça moura assada e o arroz de grelos, nem se lembrou mais de dar graças, fincou-se logo num naco de pão e ali ficou a orar por entre as migalhas que lhe saltavam para a batina. Zé e Jaquim degladiaram-se para ver quem ficava mais perto da pipa, mas a prima Adosinda, conhecedora, já se lhes tinha adiantado, botando uma de cada lado da mesa. O primo Alberto, emigrante na Holanda, degenerado, só quis beber cerveja, de modo que ficou ao lado da arca congeladora, devidamente ligada ao gerador que usavam no centro de dia para dar oxigénio aos idosos. Quina e a prima Adosinda ficaram ao lado do grelhador, um bidon devidamente cortado ao meio e cum a grelha de arame farpado tirada da cerca dos coelhos da criação do ti Manel, e ali ficaram a aviar febras e entremeadas para o resto da mesa.
Finda a refeição, era tempo de rumar ao adro para o baile e para a quermesse. Quina esperava ser desta que iria ganhar a boneca para o papel higiénico que lhe faltava na parte de trás do carro, pois ainda só tinha uma, mais a respectiva almofada de folhos e o cão com o pescoço bamboleante. Zé queria simplesmente ganhar no campeonato de chinquilho, mas o tinto já tinha começado a fazer efeito e o primeiro malho foi aterrar aos pés do presidente da junta, que ainda por cima usava daquelas sandálias abertas com peúgas de lã, por causa dos joanetes - isto porque a Ti Mila Calva este ano ainda não lhe tinha feito a cura dos ossos porque o terreiro onde ela ia apanhar as suas ervas foi fechado por motivos de infestação bacteriana desconhecida. O presidente bem que tentou mexer uns cordelinhos - afinal foi a Ti Mila que curou as diarreias dos seus filhos com folhas de couve e papas de linhaça, mas os veterinários afirmaram que o terreiro estava radioactivo, algo que ele não percebeu, pois a rádio mais próxima era em Algodres.
Samandra abriu finalmente o baile, cantando a mais atroz versão dos êxitos de Tony Carreira, e Zé Camandro viu-se obrigado a ir para o arrasta pé mais a Quina, exímia fã do Tony e do seu filho Mickael, cujo ritmo sabia de cor e salteado - e era a sua safa, porque a música estava irreconhecível, mesmo tocada pelos ritmos electrónicos - infalíveis, esperava-se - do teclista que acompanhava a acordeonista. Seguiu-se uma espantosa versão do Favas com Chouriço, um medley dos Bee Gees, a valsa da meia noite e o corridinho versão electro com acrescentos de rap, tal como descrito pelo teclista. Depois de outros variados sucessos, tais como Ágata, Dzrt e Madredeus, Samandra finalmente terminou - para a alegria de muitos, que se viram obrigados a recorrer à barraquinha de shots de aguardente para aguentar a dança - com uma mui bonita versão da música do Jorge Palma, o encosta-te a mim, que deu logo azo a muitas mãos de rapazes solteiros a deslizarem para partes impróprias das virgens raparigas que por ali bailavam, seguidas de vários estalos sonoros, que os mais velhos pensaram ser uma espécie de acompanhamento da música. O pior deu-se quando o ti Janeiras, do alto dos seus noventa e três anos, subiu ao palco para agradecer a actuação da Samandra, mas como era baixinho, acabou com o nariz enfiado no peito da rapariga. Se tivesse algum dente de sobra, sem dúvida que teria saído dali com o maior sorriso da sua vida. Em vez disso, e já tocado pelo vinho quente com canela que tinham andado a distribuir, afincou uma palmada nas nádegas da rapariga e seguir ia partindo um pulso, não se sabe se à custa da dureza das mesmas (que às más línguas da festa diziam estar povoadas de gordura das farturas e dos churros que ela empaturrava depois das actuações) se da sua osteoporose que já ia dando de si.
O pároco decidiu então dar início à procissão, tendo convocado a banda com o toque do sino, e muito a custo se conseguiram reunir umas três pessoas para levar o andaime. Dois jaziam debaixo da mesa do jantar, a dormir. Um outro tinha caído inconsciente debaixo da pipa de carrascão. Quatro tinham ficado envolvidos num jogo de lerpa, e estavam a apostar a farda para pagar as dívidas. Desesperado, o pároco decidiu chamar o sacristão para ajudar ao carrego...mas este tinha fugido com o teclista.
Pielas de Baixo era famosa nas redondezas pela sua procissão, acompanhada ao toque da banda, e que passava por todas as casas do povoado para beber um copo de aguardente em honra do santo padroeiro. Escusado será dizer que a procissão só terminava quando o último dos membros da banda parasse de tocar devido ao avançado estado de alcolismo, tendo o mesmo que carregar o santo até ao adro sozinho, para depois poder beber da garrafa de aguardente de reserva que o pároco guardava na sacristia para aquela ocasião. Este ano, os organizadores tinham decidido animar um pouco mais a festa, decidindo fazer um baile animado pela grande acordeonista Samandra, vinda de Algodres de Cima, cuja fama como música diziam advir dos seus dotes...ahem...peitorais, que sustinham em si uma enorme caixa de ar. Publicidade lançada pelo seu manager, André Rosquinha, que fazia igualmente essa função para o grandioso grupo de baile, Los Hermanos Maritos, que também davam uma perninha como equilibristas no circo Chene.
A ti Natália já tinha posto a mesa no quintal para a família, estavam apenas esperando que o pároco chegasse. Tinha estado a arear as pratas para a missa e a provar da aguardente para avaliar o estado da mesma, motivo pelo qual já vinha cantando o Requiem em passo mais apressado do que o habitual. Assim que viu a chouriça moura assada e o arroz de grelos, nem se lembrou mais de dar graças, fincou-se logo num naco de pão e ali ficou a orar por entre as migalhas que lhe saltavam para a batina. Zé e Jaquim degladiaram-se para ver quem ficava mais perto da pipa, mas a prima Adosinda, conhecedora, já se lhes tinha adiantado, botando uma de cada lado da mesa. O primo Alberto, emigrante na Holanda, degenerado, só quis beber cerveja, de modo que ficou ao lado da arca congeladora, devidamente ligada ao gerador que usavam no centro de dia para dar oxigénio aos idosos. Quina e a prima Adosinda ficaram ao lado do grelhador, um bidon devidamente cortado ao meio e cum a grelha de arame farpado tirada da cerca dos coelhos da criação do ti Manel, e ali ficaram a aviar febras e entremeadas para o resto da mesa.
Finda a refeição, era tempo de rumar ao adro para o baile e para a quermesse. Quina esperava ser desta que iria ganhar a boneca para o papel higiénico que lhe faltava na parte de trás do carro, pois ainda só tinha uma, mais a respectiva almofada de folhos e o cão com o pescoço bamboleante. Zé queria simplesmente ganhar no campeonato de chinquilho, mas o tinto já tinha começado a fazer efeito e o primeiro malho foi aterrar aos pés do presidente da junta, que ainda por cima usava daquelas sandálias abertas com peúgas de lã, por causa dos joanetes - isto porque a Ti Mila Calva este ano ainda não lhe tinha feito a cura dos ossos porque o terreiro onde ela ia apanhar as suas ervas foi fechado por motivos de infestação bacteriana desconhecida. O presidente bem que tentou mexer uns cordelinhos - afinal foi a Ti Mila que curou as diarreias dos seus filhos com folhas de couve e papas de linhaça, mas os veterinários afirmaram que o terreiro estava radioactivo, algo que ele não percebeu, pois a rádio mais próxima era em Algodres.
Samandra abriu finalmente o baile, cantando a mais atroz versão dos êxitos de Tony Carreira, e Zé Camandro viu-se obrigado a ir para o arrasta pé mais a Quina, exímia fã do Tony e do seu filho Mickael, cujo ritmo sabia de cor e salteado - e era a sua safa, porque a música estava irreconhecível, mesmo tocada pelos ritmos electrónicos - infalíveis, esperava-se - do teclista que acompanhava a acordeonista. Seguiu-se uma espantosa versão do Favas com Chouriço, um medley dos Bee Gees, a valsa da meia noite e o corridinho versão electro com acrescentos de rap, tal como descrito pelo teclista. Depois de outros variados sucessos, tais como Ágata, Dzrt e Madredeus, Samandra finalmente terminou - para a alegria de muitos, que se viram obrigados a recorrer à barraquinha de shots de aguardente para aguentar a dança - com uma mui bonita versão da música do Jorge Palma, o encosta-te a mim, que deu logo azo a muitas mãos de rapazes solteiros a deslizarem para partes impróprias das virgens raparigas que por ali bailavam, seguidas de vários estalos sonoros, que os mais velhos pensaram ser uma espécie de acompanhamento da música. O pior deu-se quando o ti Janeiras, do alto dos seus noventa e três anos, subiu ao palco para agradecer a actuação da Samandra, mas como era baixinho, acabou com o nariz enfiado no peito da rapariga. Se tivesse algum dente de sobra, sem dúvida que teria saído dali com o maior sorriso da sua vida. Em vez disso, e já tocado pelo vinho quente com canela que tinham andado a distribuir, afincou uma palmada nas nádegas da rapariga e seguir ia partindo um pulso, não se sabe se à custa da dureza das mesmas (que às más línguas da festa diziam estar povoadas de gordura das farturas e dos churros que ela empaturrava depois das actuações) se da sua osteoporose que já ia dando de si.
O pároco decidiu então dar início à procissão, tendo convocado a banda com o toque do sino, e muito a custo se conseguiram reunir umas três pessoas para levar o andaime. Dois jaziam debaixo da mesa do jantar, a dormir. Um outro tinha caído inconsciente debaixo da pipa de carrascão. Quatro tinham ficado envolvidos num jogo de lerpa, e estavam a apostar a farda para pagar as dívidas. Desesperado, o pároco decidiu chamar o sacristão para ajudar ao carrego...mas este tinha fugido com o teclista.
Monday, February 4, 2008
Dakar Portuga, part II
Casabranca (mas no Alentejo, ainda)
O motor do Toyota fumegava abundantemente, largando uma nuvem de fumo cinzenta e gordurosa - isto porque o Chico Rater tinha decidido aproveitar a chapa quentinha para aviar uns couratos para o pessoal que, em solidariedade com o pneu vazado da Famel do Márcio, tinham decidido parar.
Quatro horas de prova decorrida, cheia de emocionantes eventos, desde a fila da Ponte Vasco da Gama à perigosa ultrapassagem feita por um tractor CAT, que quase que ia deitando a Famel para a valeta. Felizmente Márcio deitou primeiro o pé adiante, ou a esta hora estaria até ao pescoço em lama vinda directamente das pocilgas.
Era trágico. O café central estava a ficar sem mines, e o camião frigorífico do Ivan nunca mais chegava. Mais um pouco e seriam obrigados a passar para os copos de três e de aguardente. O Manco, como habitualmente, baixou a ardósia e reviu a pontuação do Dakar:
- Zé Camandro: 43 mines e quatro sandes de courato
- Manel Roscas: 42 mines e meia, duas sandes de courato e uma coxinha de galinha
- Alfredo Ganza: 40 mines, 3 enrolados e um pacote de pevides
- Quim Ganas: 39 mines, duas amêndoas amargas, um copo de três e uma entremeada
- Márcio André: 35 mines, duas frizes de limão, um cornetto de morango e dois chupas
- Artur Buana: 32 mines, uma embalagem de Alka Seltzer e uma noite no SAP de Beja
Após uma sesta revigorante, os participantes preparam-se para a seguinte etapa da prova: o campeonato de chinquilho, seguido da matança do porco e da fazedura de salsichas para o jantar. Tudo regado com tinto, que um piloto não deve ter nunca sede.
A abrilhantar o certame, as modelos Carina Liliana (conhecida como a fechadura por causa do buraco que tem no meio dos dentes) e Aljustrina Lameiras, o bigode mais farfalhudo daqui até Odeceixe.
O motor do Toyota fumegava abundantemente, largando uma nuvem de fumo cinzenta e gordurosa - isto porque o Chico Rater tinha decidido aproveitar a chapa quentinha para aviar uns couratos para o pessoal que, em solidariedade com o pneu vazado da Famel do Márcio, tinham decidido parar.
Quatro horas de prova decorrida, cheia de emocionantes eventos, desde a fila da Ponte Vasco da Gama à perigosa ultrapassagem feita por um tractor CAT, que quase que ia deitando a Famel para a valeta. Felizmente Márcio deitou primeiro o pé adiante, ou a esta hora estaria até ao pescoço em lama vinda directamente das pocilgas.
Era trágico. O café central estava a ficar sem mines, e o camião frigorífico do Ivan nunca mais chegava. Mais um pouco e seriam obrigados a passar para os copos de três e de aguardente. O Manco, como habitualmente, baixou a ardósia e reviu a pontuação do Dakar:
- Zé Camandro: 43 mines e quatro sandes de courato
- Manel Roscas: 42 mines e meia, duas sandes de courato e uma coxinha de galinha
- Alfredo Ganza: 40 mines, 3 enrolados e um pacote de pevides
- Quim Ganas: 39 mines, duas amêndoas amargas, um copo de três e uma entremeada
- Márcio André: 35 mines, duas frizes de limão, um cornetto de morango e dois chupas
- Artur Buana: 32 mines, uma embalagem de Alka Seltzer e uma noite no SAP de Beja
Após uma sesta revigorante, os participantes preparam-se para a seguinte etapa da prova: o campeonato de chinquilho, seguido da matança do porco e da fazedura de salsichas para o jantar. Tudo regado com tinto, que um piloto não deve ter nunca sede.
A abrilhantar o certame, as modelos Carina Liliana (conhecida como a fechadura por causa do buraco que tem no meio dos dentes) e Aljustrina Lameiras, o bigode mais farfalhudo daqui até Odeceixe.
Thursday, January 24, 2008
Dakar portuga
Não havendo mais campeonatos de futebol a discutir (já tinham até passado os olhos pelo resultado das quatro equipas à disputa da Taça da Patagónia), alguém levantou a problemática do Dakar. Zé Camandro franziu o sobrolho, sorveu mais um trago da sua amêndoa amarga (digno aperitivo antes de se fazer à feijoada domingueira) e fez um ar sério, de quem está prestes a ter uma ideia produtiva. Todos pensaram que ele ia simplesmente agarrar na Bola e ir para a cabine, mas Zé limitou-se a sugerir que havia outras formas mais rentáveis de fazer o Dakar. O Manco, limpando o suor da testa (com o mesmo pano com que continuava a limpar os copos), aproveitou a achega e continuou o despique. Dakar português que se preze, tem homens valentes. Não há cá estas mariquices de gêpêesses e mapas. A malta sabe para onde vai, não tem cá que andar a perguntar onde que fica Dakar e outra porcarias. Basta atravessar a ponte, cortar a direito em Alcochete, e seguir estrada fora. É logo ali mais abaixo, a dar à praia e mai nada.
Depois havia a questão dos patrocínios. Quais Trifene 200, quais quê. Uma mulheraça daquele tamanho armada em esquisita, cheia de dores. Aquilo era fazer do camião dela uma barraca de churros e farturas, pôr a Jacinta ali de volta da sertã a despachar, ia render que era uma beleza. Mais o camião frigorífico da Super Bock, cheio de grades de mines, fresquinhas, ali mesmo a puxar ao tremoço e ao minuim. E o grelhador para as entremeadas. Toni Casquinha argumentou logo que não era preciso tanto - mecânico de mão cheia, sabia bem que bastava aquecer bem o radiador, limpar a chapa do motor. Sobrava espaço na bagageira para pendurar as morcelas e o presunto. Os couratos iam de arrasto no banco de trás, a ganhar o tempero, já dentro do alguidar.
Nada de motas quitadas. Uma Zundapp deixava rasto e fazia tudo de uma enfreada, e se fosse preciso ainda levava um caixotito atrás com umas quantas garrafas de tinto, que quanto mais rápido andar mais refresca.
Márcio André, levantando os olhos do poster da revista do Correio da Manhã, levantou uma questão: e aquelas boazonas que andam lá a distribuir as garrafas de chamapanhe e aqueles ramos estranhos? Era vê-las ali a suar com os calor, de bikini e boné da Galp, a distribuir mas era palmada...
A onda masculina começou logo a levantar as barrigas e a afiar os bigodes...Toni ofereceu-se logo para mecânico, Zé queria ser piloto, o Manco queria-se enfiar na cozinha. Já havia carros, o Manel do Talho já fazia contas aos caixotes de febras e couratos, enquanto o Quim da mercearia já ia começar a empacotar as couves para o cozido da chegada. A Funerária Alfamense e as Viagens Fim do Mundo ofereceram logo os patrocínios. Daí a pouco já estava tudo na garagem do Toni Casquinha, a tentar optar entre o Toyota Selica e o Ford Fiesta picado de ferrugem. Para a categoria das motas, a Famel do Zé e a Sachs do Roscas. Havia ainda a categoria dos pesados, na qual estavam incluídos a Ford Transit do Zé Lello, a roulotte do Abafado e a carrinha de caixa aberta das Empreitadas Botabaixo. O Ivan ainda quis pôr o seu camião a concurso, mas como tinha um carregamento de whiskey de Sacavém para despachar para Badajoz no dia seguinte, disse que depois logo os apanhava.
Depois havia a questão dos patrocínios. Quais Trifene 200, quais quê. Uma mulheraça daquele tamanho armada em esquisita, cheia de dores. Aquilo era fazer do camião dela uma barraca de churros e farturas, pôr a Jacinta ali de volta da sertã a despachar, ia render que era uma beleza. Mais o camião frigorífico da Super Bock, cheio de grades de mines, fresquinhas, ali mesmo a puxar ao tremoço e ao minuim. E o grelhador para as entremeadas. Toni Casquinha argumentou logo que não era preciso tanto - mecânico de mão cheia, sabia bem que bastava aquecer bem o radiador, limpar a chapa do motor. Sobrava espaço na bagageira para pendurar as morcelas e o presunto. Os couratos iam de arrasto no banco de trás, a ganhar o tempero, já dentro do alguidar.
Nada de motas quitadas. Uma Zundapp deixava rasto e fazia tudo de uma enfreada, e se fosse preciso ainda levava um caixotito atrás com umas quantas garrafas de tinto, que quanto mais rápido andar mais refresca.
Márcio André, levantando os olhos do poster da revista do Correio da Manhã, levantou uma questão: e aquelas boazonas que andam lá a distribuir as garrafas de chamapanhe e aqueles ramos estranhos? Era vê-las ali a suar com os calor, de bikini e boné da Galp, a distribuir mas era palmada...
A onda masculina começou logo a levantar as barrigas e a afiar os bigodes...Toni ofereceu-se logo para mecânico, Zé queria ser piloto, o Manco queria-se enfiar na cozinha. Já havia carros, o Manel do Talho já fazia contas aos caixotes de febras e couratos, enquanto o Quim da mercearia já ia começar a empacotar as couves para o cozido da chegada. A Funerária Alfamense e as Viagens Fim do Mundo ofereceram logo os patrocínios. Daí a pouco já estava tudo na garagem do Toni Casquinha, a tentar optar entre o Toyota Selica e o Ford Fiesta picado de ferrugem. Para a categoria das motas, a Famel do Zé e a Sachs do Roscas. Havia ainda a categoria dos pesados, na qual estavam incluídos a Ford Transit do Zé Lello, a roulotte do Abafado e a carrinha de caixa aberta das Empreitadas Botabaixo. O Ivan ainda quis pôr o seu camião a concurso, mas como tinha um carregamento de whiskey de Sacavém para despachar para Badajoz no dia seguinte, disse que depois logo os apanhava.
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