Tanto bateu, tanto remoeu, tanto insistiu, que Zé Camandro não teve hipótese. Quina queria um jantar romântico no dia dos namorados. Lá que já fossem vinte e cinco anos de casados, a verdade é que continuava a ser preciso ter algumas atenções para o respectivo parceiro, para manter a chama. Zé Camandro botava a mão no fogo em como a Quina tinha andado a ler outra vez o diário de Maria, mais aquelas ideias malucas que costumam pôr na cabeça das mulheres, só para chatear a vida dos homens. Isto no tempo do Salazar é que era bom. Todas em casa, a bordarem almofadas e o enxoval, a namorarem de janela (vá-se lá saber como engravidavam!), da casa dos pais para a casa do marido... agora é só modernices, andam aí todas descascadas (não que algumas não dê para lavar a vista), a trabalhar por fora (se bem que as meninas do gás são um regalo para a vista) e a fazer coisas de homens (e aquela jeitosa da bomba de gasoil...?). A bem dizer, talvez hajem vantagens.
Assim foi. Zé Camandro tomou o seu banho. De after shave, lá está. Como é um dia especial, trocou de Brut para Old Spice, para ter um ar mais distinto. Fato cinzento de risca e quadro 100% tirilene, o belo do sapatinho de borla envernizado, a bela da camisa de riscas cor de vinho (boldô, como disse o chinês da loja), o pelame a descoberto, a cruz de ouro plantada no meio. Quais gravata, isso é para quando a filhota se casar, ainda tem o nó feito, é melhor não estragar. Já que estava num de espicaçar o romance, puxou daquelas meias do kama sutra que lhe ofereceram nos anos - há que variar da peúga branca, nem que seja por um dia. Barba feita, patilhas alinhadas, cachucho no mindinho e unhaca polida. Um mimo! Telemovel tijolo no bolso da camisa, e o raybante no cabelo coberto de brilhantina.
Quina demorou um pouco mais de tempo, depois de ter passado pela calista (tinha de caber dentro dos sapatos de salto), pelo cabeleireiro (a última mise já tinha cinco centimetros de cor diferente) e pela esteticista (que demorou que tempos para arrancar aquele buço e lhe refazer as sobrancelhas). Custou a entrar no vestido preto que tinha usado na última festa de gala do bairro - quando decidiram fazer o baile de finalistas da escola secundária lá da zona (é que quase ninguém chega à universidade, de modo que tiveram que se remediar) - daqueles com mangas compridas de renda e um decote que mais descobre do que destapa. Muitos folhos, e uma echarpe de cor forte (amarelo berrante, daquele que surge nas fraldas dos bebés). Sapatos de salto, coisa a que Quina não está muito habituada por causa das dores das cruzes e dos buracos no passeio.
Zé Camandro foi entrentanto tomar o aperitivo ao café do Manco enquanto ela não se despachava com a maquilhagem. Depois de ter lido a Bola de uma ponta à outra, lá se decidiu a ir chamá-la, ou ainda perdiam o primeiro prato. Quina desceu a muito custo os degraus, com medo de por o sapato em algum dejecto canino deixado pelo pit bull do vizinho de cima.
Chegados à rua, e dado que o fiat 127 estava na oficina para trocar as molas da suspensão, tiveram que ir na antiga Zundapp do Zé, que ainda estava ali para as curvas. Deitava um bocado de fumo, mas isso era por causa do oleo fula que o Zé usava como combustível, numa de poupança. A Zundapp ainda tombou para trás quando Quina se ajeitou no banco traseiro, mas como era para descer a rua, até se fez bem. Bem demais, chegaram ao restaurante da Ti Rosa num instante, quase nem deu tempo para travar. Quina fez o que se chama uma descida em movimento. Zé Camandro avançou pomposo para a entrada, anunciando que tinha uma reserva para dois. Olhou para dentro do restaurante e viu que não era o único. Estava lá o Tóino João, o Toni Casquinha, o Mané das foices, o Chiquinho dentola, o Nelas, o Necas, o Chico Rater e mais uns quantos. Tudo com ar desconsolado, mas à luz da vela. As mulheres pareciam saídas daqueles filmes dos anos sessenta, com quilos de rimel nos olhos, sombras verde forte e toneladas de tinta cor pastel a fazer de base. Todos os maridos estavam a pensar que, se tivessem sorte nessa noite, iam ter igualmente de tomar umas quantas águas das pedras para desfazer a azia de andar a lamber aquilo tudo.
No ar ouvia-se Toni Carreira, brilhantemente imitado pelo acordeonista de serviço, o André Afonso, talentoso rapaz de quinze anos, que tinha tanta acne naquela cara que não se percebia se era ele ou uma bola de espelhos. Como toda a gente ficava fixada na cara do rapaz, ninguém notava as fífias na música, isto porque o rapaz estava na mudança da voz - até há bem pouco tempo só tocava músicas da Ana Malhoa.
O menu, porque era dia dos namorados - mas também dia de jogo do Benfica - era todo a vermelho. Sopa de tomate, febras com salada de tomate à algarvia, gelado de morango. Também havia vinho tinto, se bem que só as mulheres disseram que sim, uma vez que era um jantar fino. Até beberam dos copos com o mindinho levantado, como costumavam ver na novela da tarde. O resto dos machos foi corrido a mines, a acompanhar as azeitonas do "cuverte". Mudou-se logo o canal da televisão para se ver o Benfica, apesar dos protestos femininos. Estas, enquanto não se acabavam de grelhar as febras, lá aproveitaram para por a conversa em dia, que desde dessa manhã que não se actualizam no mais recente escândalo da velha do terceiro esquerdo que andava a viver com um kosovar trinta anos mais novo, e mais o seu cão.
A sopa foi servida no intervalo do jogo, para não causar grandes interrupções, e lá se pôs novamente o André Afonso a tocar, para dar ambiente à coisa. Foi nessa altura que Quina, tal como tinha lido nos fotoromances da revista Ana, decidiu perguntar ao Zé se ainda sentia o mesmo calor que tinha sentido naquela primeira vez em que sairam juntos.
"Não...mas eu também não tenho as mamas enfiadas no prato, como tu tens agora!"