Tuesday, February 20, 2007

raios te partam são valentim

Tanto bateu, tanto remoeu, tanto insistiu, que Zé Camandro não teve hipótese. Quina queria um jantar romântico no dia dos namorados. Lá que já fossem vinte e cinco anos de casados, a verdade é que continuava a ser preciso ter algumas atenções para o respectivo parceiro, para manter a chama. Zé Camandro botava a mão no fogo em como a Quina tinha andado a ler outra vez o diário de Maria, mais aquelas ideias malucas que costumam pôr na cabeça das mulheres, só para chatear a vida dos homens. Isto no tempo do Salazar é que era bom. Todas em casa, a bordarem almofadas e o enxoval, a namorarem de janela (vá-se lá saber como engravidavam!), da casa dos pais para a casa do marido... agora é só modernices, andam aí todas descascadas (não que algumas não dê para lavar a vista), a trabalhar por fora (se bem que as meninas do gás são um regalo para a vista) e a fazer coisas de homens (e aquela jeitosa da bomba de gasoil...?). A bem dizer, talvez hajem vantagens.
Assim foi. Zé Camandro tomou o seu banho. De after shave, lá está. Como é um dia especial, trocou de Brut para Old Spice, para ter um ar mais distinto. Fato cinzento de risca e quadro 100% tirilene, o belo do sapatinho de borla envernizado, a bela da camisa de riscas cor de vinho (boldô, como disse o chinês da loja), o pelame a descoberto, a cruz de ouro plantada no meio. Quais gravata, isso é para quando a filhota se casar, ainda tem o nó feito, é melhor não estragar. Já que estava num de espicaçar o romance, puxou daquelas meias do kama sutra que lhe ofereceram nos anos - há que variar da peúga branca, nem que seja por um dia. Barba feita, patilhas alinhadas, cachucho no mindinho e unhaca polida. Um mimo! Telemovel tijolo no bolso da camisa, e o raybante no cabelo coberto de brilhantina.
Quina demorou um pouco mais de tempo, depois de ter passado pela calista (tinha de caber dentro dos sapatos de salto), pelo cabeleireiro (a última mise já tinha cinco centimetros de cor diferente) e pela esteticista (que demorou que tempos para arrancar aquele buço e lhe refazer as sobrancelhas). Custou a entrar no vestido preto que tinha usado na última festa de gala do bairro - quando decidiram fazer o baile de finalistas da escola secundária lá da zona (é que quase ninguém chega à universidade, de modo que tiveram que se remediar) - daqueles com mangas compridas de renda e um decote que mais descobre do que destapa. Muitos folhos, e uma echarpe de cor forte (amarelo berrante, daquele que surge nas fraldas dos bebés). Sapatos de salto, coisa a que Quina não está muito habituada por causa das dores das cruzes e dos buracos no passeio.
Zé Camandro foi entrentanto tomar o aperitivo ao café do Manco enquanto ela não se despachava com a maquilhagem. Depois de ter lido a Bola de uma ponta à outra, lá se decidiu a ir chamá-la, ou ainda perdiam o primeiro prato. Quina desceu a muito custo os degraus, com medo de por o sapato em algum dejecto canino deixado pelo pit bull do vizinho de cima.
Chegados à rua, e dado que o fiat 127 estava na oficina para trocar as molas da suspensão, tiveram que ir na antiga Zundapp do Zé, que ainda estava ali para as curvas. Deitava um bocado de fumo, mas isso era por causa do oleo fula que o Zé usava como combustível, numa de poupança. A Zundapp ainda tombou para trás quando Quina se ajeitou no banco traseiro, mas como era para descer a rua, até se fez bem. Bem demais, chegaram ao restaurante da Ti Rosa num instante, quase nem deu tempo para travar. Quina fez o que se chama uma descida em movimento. Zé Camandro avançou pomposo para a entrada, anunciando que tinha uma reserva para dois. Olhou para dentro do restaurante e viu que não era o único. Estava lá o Tóino João, o Toni Casquinha, o Mané das foices, o Chiquinho dentola, o Nelas, o Necas, o Chico Rater e mais uns quantos. Tudo com ar desconsolado, mas à luz da vela. As mulheres pareciam saídas daqueles filmes dos anos sessenta, com quilos de rimel nos olhos, sombras verde forte e toneladas de tinta cor pastel a fazer de base. Todos os maridos estavam a pensar que, se tivessem sorte nessa noite, iam ter igualmente de tomar umas quantas águas das pedras para desfazer a azia de andar a lamber aquilo tudo.
No ar ouvia-se Toni Carreira, brilhantemente imitado pelo acordeonista de serviço, o André Afonso, talentoso rapaz de quinze anos, que tinha tanta acne naquela cara que não se percebia se era ele ou uma bola de espelhos. Como toda a gente ficava fixada na cara do rapaz, ninguém notava as fífias na música, isto porque o rapaz estava na mudança da voz - até há bem pouco tempo só tocava músicas da Ana Malhoa.
O menu, porque era dia dos namorados - mas também dia de jogo do Benfica - era todo a vermelho. Sopa de tomate, febras com salada de tomate à algarvia, gelado de morango. Também havia vinho tinto, se bem que só as mulheres disseram que sim, uma vez que era um jantar fino. Até beberam dos copos com o mindinho levantado, como costumavam ver na novela da tarde. O resto dos machos foi corrido a mines, a acompanhar as azeitonas do "cuverte". Mudou-se logo o canal da televisão para se ver o Benfica, apesar dos protestos femininos. Estas, enquanto não se acabavam de grelhar as febras, lá aproveitaram para por a conversa em dia, que desde dessa manhã que não se actualizam no mais recente escândalo da velha do terceiro esquerdo que andava a viver com um kosovar trinta anos mais novo, e mais o seu cão.
A sopa foi servida no intervalo do jogo, para não causar grandes interrupções, e lá se pôs novamente o André Afonso a tocar, para dar ambiente à coisa. Foi nessa altura que Quina, tal como tinha lido nos fotoromances da revista Ana, decidiu perguntar ao Zé se ainda sentia o mesmo calor que tinha sentido naquela primeira vez em que sairam juntos.
"Não...mas eu também não tenho as mamas enfiadas no prato, como tu tens agora!"

Tuesday, February 13, 2007

Márcio André e o seu livrinho preto de dicas

Por acaso andas na tropa?... É que já marchavas!

Contigo... era até achar petróleo! ...humm, interessante, e já agora, tens perfuradora?

Num dia de chuva: - Xiii! não podemos sair, chove a dar com o pau... por falar em dar com o pau...

És católica?... É que tens um cú, valha-me Deus!

Posso não ser bonito como o Brad Pitt, nem ter os músculos do Scwarzenegger, mas a lamber sou uma Lassie... : imagino, também te babas?

Se é verdade que somos o que comemos, eu amanhã podia ser tu!!!

"Come to me", que eu como-te a ti...

Com uma montra dessas..., imagino como é que é o armazém!

Olha, queres ir lá a casa para ouvir música? Se depois não gostares da música, podes vestir-te e ir embora?

(Lamber o dedo e passar na camisola dela) É melhor tirares essa roupa molhada.

Estou a lutar desesperadamente contra o impulso de fazer de ti a mulher mais feliz do mundo, esta noite!

Só queria que fosses uma pastilha elástica para te comer o dia todo.

Essa roupa fica-te muito bem, mas eu ficava-te melhor.

Gostava de ver como ficas comigo nu.

Não és nada má, já tive muito pior e a pagar.

Lindas pernas, a que horas abrem?

Lindas pernas, só é pena serem a primeira coisa que se põe para o lado.

Posso-te pagar um copo, ou preferes o dinheiro?

Posso não ser o tipo mais giro, mas sou o único que está a falar contigo.

Isso é tudo teu?

Há mais lá em casa como tu?

Sentes a magia que há entre nós?... Mais abaixo!

Desculpa, pensei que fosse uma etiqueta em braille.

Só queria que fosses um cavalinho de carrocel, para te montar o dia todo por 100 paus.

Ajudas-me a procurar o meu cãozinho? Acho que entrou neste quarto de hotel.

Acreditas no amor à primeira vista, ou tenho de passar outra vez?

Olá, sou o tipo perfeito. Disseram-me que andavas à minha procura.

Os meus amigos querem saber se achas que sou giro.

Posso tocar no teu umbigo . . . da parte de dentro?

Não sou muito bom em matemática, mas 1+1 = 69?

Podes não ser a rapariga mais gira, mas com a luz apagada também é bom.

Só quero saber o teu nome para quando me masturbar saber em quem estou a pensar.

O meu amor por ti é como a diarreia, não o consigo manter cá dentro.

Ia até ao fim do mundo por um dos teus sorrisos, e ainda mais longe pela outra coisa que podes fazer com a boca.

(Olhar para o fecho das calças) Bem, sabes, não se vai chupar sozinho.

Se tivesse no teu lugar, tinha sexo comigo na boa!.

Tu e eu. Chantilly e algemas. Alguma pergunta?

Essa roupa ficava um espectáculo no chão do meu quarto.

Não te esqueças do meu nome, mais logo vais gritá-lo.

Se fosses a última mulher e eu o último homem na Terra, aposto que fazias amor comigo em público..

Queres vir a minha casa para sexo e pizza? Não?! Não gostas de pizza?

Costumas dormir em cima do teu estômago? Posso dormir eu?

Deixa-me ver a etiqueta da tua camisola. Quero ver se diz "Made in Heaven".

Doeu muito quando caíste do céu?

Sapatos giros, vamos para a cama?

Vou dar-te uma foda nessa naça, minha cabra.
Caluda e abre o grelo que já estás a escorrer melaço até aos pés!
(com estas palavras doces, infalível!)

Monday, February 12, 2007

Zé Camandro está de ressaca

Sábado chegou, e Zé Camandro tirou o cachecol do glorioso do louçeiro de vidro e sacudiu as bolas de naftalina. É dia de jogo da taça, e há que ir vestido a rigor. Com o seu cartão de sócio já gasto nas pontas de tanto o tirar da carteira para mostrar aos amigos do café - e cujas quotas não paga desde que se registou em 1967 - Zé Camandro rumou ao café do Manco, onde se tinham reunido todos os adeptos benfiquistas do bairro, desde que o projecto da casa do Benfica foi embargado porque o Zé Calceteiro se afiambrou aos tijolos para construir uma casa ali na Fonte da Telha, para passar as férias - isto porque lhe roubaram a roulotte que tinha no parque de Campismo da Orbitur. Depois disso, alugou-a a vinte e cinco brasucas que lá vivem felizes e contentes, fazendo a tristeza das mulheres do parque de campismo - porque as brasileiras levam mais barato - e por isso mesmo, a alegria dos restantes visitantes masculinos. Quanto ao cimento, serviu para construir uns tanques de lavar a roupa, que estas modernices de máquinas de lavar a roupa não são para gente humilde. Além disso, no verão, dão muito bem para os putos chapinharem, em vez de se estar a pagar balúrdios de dinheiro pela colónia de férias em santo amaro de oeiras.

Já o grelhador - isto depois do Zé Manco lhe ter dado umas bordoadas no candeeiro para sacudir o sabor das sardinhas grelhadas no dia anterior - estava quentinho. Note-se que tinha sido feito a partir de um bidon subtraído à bomba de gasolina, mais umas grades que tinha arrancado da escola primária - sim, porque agora os miúdos não precisam de grades, com a polícia sempre a rondar ali à volta. O alguidar de couratos - alguns deles ainda com pelo e com o respectivo carimbo de origem - estava temperado e pronto a ser consumido. Já dizia o Zé Manco, "comer coourato com pelo é como comer uma alemã".

Começou o jogo na televisão, uma boa telefunken a preto e branco - estava mais para o amarelo por causa do fumo de tanto SG Ventil que ali dentro se fumava. O belo do naperon branco por cima, para evitar as nódoas das moscas que morriam electrocutadas - também morriam umas quantas no papel mata moscas, mas isso não dava muito resultado porque havia quem costumasse usar o papel para apagar as beatas. Começou o despique da mine, mais a bela da carcaça com courato. Para os mais saudáveis, havia tramoços e minuins.

Corriam os habituais bitaites acerca do desempenho dos 22 coxos que andavam a pastar na relva, mais o mariconço de preto que queria tocar o pifaro a quem se metesse à frente, quando o Manco decidiu inaugurar uma garrafita de aguardente que lá tinha guardada desde o tempo do avô, que era contrabandista ali em Sacavém, a passar uisque para água e álcool, nos tempos da greve dos comboios.

Vai de copo de três para todos quando chegaram ao intervalo. Foi então que todos se levantaram ao mesmo tempo para ir mudar a água às azeitonas, e não havia urinóis que chegassem, de modos que foi tudo enfeitar a parede traseira do café. Mas...aquilo era mais do que água...

E desatou tudo a correr para casa...

Friday, February 9, 2007

Febre de sábado de manhã

Para gente trabalhadeira e honrada, sábado de manhã é dia de botar uma roupita prática, afim de ir buscar pão para a família. Enquanto a Quina dá um jeito na casa, ao som de mais um sucesso do Lucas e Mateus, que pela enésima vez choram a namorada que perderam, Zé Camandro tenta ajeitar o barrigão dentro do novo fato de treino fluorescente, comprado nos saldos do chinês - sim, que o chinês vende mais barato que os ciganos ali da feira do relógio - e dá um salto ao café do manco, para o xiripiti e o café, enquanto lê a Bola e o Destak do dia anterior. Corrente de ouro ao pescoço, peito descoberto a deixar ver o pelame, cachucho do anelar, telemóvel na bolsa de cintura, e está aviado. Só mais uns toques de after shave Brut (há moscas que começam a sentir-se zonzas), para refrescar.

Passa a Quina, arrastando atrás o perigoso carrinho de rodas que tantas canelas já danificou, bate na porta do café, e grita lá para dentro "Zé, vamos embora!" Levantam-se sempre vários, resmungando entredentes pela leitura interrompida, mas só um teve azar e tem mesmo de ir.

A primeira paragem é na praça dos sapadores, para comprar uns carapaus para cozer para o almoço. Zé Camandro olha desconfiado para os peixes, todos com um ar arremelgado de quem não vê o mar há muito tempo. Comenta para a Quina que aquilo tem ar de ser carapau de aviário. Comentou demasiado alto, que salta de lá a Tina Peixeira, pescoço carregadinho de ouro, mais as arrecadas que vêm desde a bisavó Malena, e um dente de ouro que quer deixar à filha mais nova para ela um dia dar entrada para um apartamentozito ali na Graça. Quais carapaus de aviário, quais quê. Fresquinhos, foi ela de madrugada buscá-los a Sesimbra. Vêm para aqui estes finórios armados aos cucos, com a mania que sabem de peixe...a única coisa que sabem é do atum em lata. Zé Camandro faz vista grossa e afasta-se da banca, prometendo entredentes que se fosse mulher dele, logo lhe dava a lata, e mais o atum. Quina, como sempre, dá-lhe uma cotovelada a ver se ele se endireita e se decide a comprar alguma coisa, que já vão sendo horas de ir para casa e ainda têm de passar pelas verduras, que amanhã é dia de cozido à portuguesa. Isto enquanto passa com o carrinho por cima dos pés da Otília, aquela lambisgóia do terceiro direito que vive amancebada com o brasileiro de vinte e cinco anos e pais de gémeos, que é stripper em part time no T.

Zé Camandro lá se decide numas pescadinhas de rabo na boca, que ficam a matar com um arrozinho de grelos, daqueles maladrinhos. Incha o peito, faz ar de bazófia, e exclama para o ar, que agora só faltam os grelos para completar o ramalhete. Isto porque estava a olhar para a banca da fruta, onde os marmelos da Beta - não a fruta, note-se - estavam ajeitados. É a vez de Quina fazer vista grossa, e de lhe dar um encontrão, que quase derrubava o garrafão de tinto que Zé Camandro tinha comprado ao indiano que montou uma banca à entrada. Mesmo ao lado do homem dos raybantes, hoje em promoção de dois por cinco érios. É de aproveitar, que agora com o verão a chegar, vão dar jeito. E vão ficar mesmo a matar com o fato de quadrados e a camisa de flores, para quando for lá o próximo baile do centro recreativo.

Pequena paragem na drogaria para comprar mais uma dose de after shave - vá-se lá saber como, aquilo parece que evapora, e vá de rumar a casa a tempo de ver o telejornal, enquanto Quina tempera e frita as pescadinhas para o almoço.

Zé...vai lá buscar o pão que não te lembraste...