Quina decidiu finalmente melhorar o magro orçamento familiar. É que entre o salário mínimo do Zé Camandro, o subsídio de desemprego do Márcio, o abono de família da Soraia, a coisa tem de ser muito esticada. Lá felizmente que a renda da casa não passa dos 1,80 euros por mês (não é actualizada desde que a tia avó da Quina foi para lá morar antes do Salazar morrer), e a TV Cabo é uma puxada da vizinha Natércia, que mandou por a parábola só para poder ver o wrestling na Sic Radical - diz que lhe faz lembrar os tempos de luta greco romana, quando trabalhava no cine bolso. A Famel há muito que está paga, assim como o Fiat 127, que vai dando para as curvas. Agora os putos é que estragam completamente o orçamento.
Primeiro foi com os telemóveis com máquinas fotográficas, que o Márcio usa para ver pornografia que saca da internet no computador que Zé adquiriu a crédito na loja do Electro Fanan, em suaves prestações de 10 euros por mês - mais o écran, impressora, teclado, rato, mesa digitalizadora, sistema de som, leitor de DVD's, leitor de código de barras, gira-discos, fritadeira e uma série de coisas que o Fanan disse serem imprescindíveis para a miúda fazer os trabalhos da escola - calcula-se que estará pago lá para 2027. Depois foi o Márcio que embirrou que queria uma consola de jogos porque todos os amigos lá do bairro tinham uma. Lá veio a Playstation, comandos, controlo, ecran gigante e um sofá para albergar os moços todos lá em casa, porque as playstation deles já estavam todas quinadas de tanta pancada.
Mais a conta do lar da sogra, as quotas do Benfica do Zé, as horas de calista da Quina, e o aparelho dos dentes da Soraia...vai-se o orçamento todo.
Quina viu um anúncio a pedir mulheres robustas para trabalhos domésticos, lá no painel de anúncios do Lidl de Xabregas, e como já tinha prática de esfregar escadas, achou que podia tentar. Ligou, marcou a entrevista para o dia seguinte. Botou a melhor bata que tinha no armário - a de flores cor de rosa com uns folhos no bolso da frente, tirou do armário as Dr. Scholls que o Zé lhe ofereceu no Natal, collants escuros de descanso e tirou os rolos do cabelo. Apanhou o 49 para Xabregas, e lá se apresentou ao serviço.
O dito dono da empresa, Bóinas para os mais chegados, Sô Tôr para as empregadas, deu-lhe as boas vindas e tratou de a pôr ao corrente do trabalho - sempre que houvesse trabalho ao domícilio que cabesse nas medidas dela (Quina deu por si a pensar que raio de medidas eram aquelas), era chamada. Vinha recolher o uniforme, e seguia para o cliente. Também acontecia serem tarefas mais pesadas, que já exigiam que fossem grupos (Quina pensou que eram daquelas limpezas pesadas, a arredar armários e coisas assim). Aceitou de bom grado, até porque como era sem recibo, podia continuar a receber o rendimento mínimo garantido.
No dia seguinte logo lhe ligaram a avisar que tinha serviço. Passou pelo escritório para recolher a bata e os instrumentos. A matrona de serviço, uma louraça com mais pregas que uma das colchas de folhos que o Tóino Andrade vende lá no bazar, olhou-a de alto a baixo e foi buscar um saco grande com um fato preto de latex lá dentro, e mais uma malinha preta. Não querendo fazer parte de ignorante, dirigiu-se à casa de banho e lá se tentou espremer para dentro do fato, pensando que assim não havia mancha de líxivia que lhe manchasse a bata. O decote era um bocado vantajoso, mas afinal até mesmo uma mulher de limpeza tem que ter um toque de coquete. Agarrou na malinha preta e foi para dentro da carrinha mais as outras empregadas. Notou que a maior parte delas eram brasileiras (coitadinhas, com uma vida tão boa que podiam levar lá com tanto sol e homens bonitos).
Primeira paragem, gritou o motorista - tudo lá para fora. Quina saltou da Fort Transit, e entrou a direito na porta aberta, de onde vinha um cheiro a sardinha assada e a copos de três. Na entrada, tinha escrito "Casa do Benfica de Fontanelas". Mas que raio, pensou Quina...se calhar precisam de uma limpeza geral ao prédio...
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