O mercedes deu o seu habitual estouro, anunciando-se no adro com a sua habitual cortina de fumo. O escape exalou o seu último suspiro, sobrepondo-se ao som da música pimba que saia dos holofotes, e estourou sem pejo nem vergonha. Tinham chegado à Pielas de Baixo, terra natal de Quina, para a habitual festança da Páscoa. O que significava comes e bebes, matança de um qualquer animal, chinquilho, banda, procissão e uma cartada ou outra pelo meio. Zé e Quina apearam-se do carro, sacudindo a poeira do caminho, e logo do alto da casa de pedra cinzenta assumou uma figura de preto e com um bigode mais farfalhudo que o de Quim. Era a ti Natália, matriarca da família, que nunca tinha perdoado a Quina ter migrado para a cidade, em vez de ter ficado por ali como pastora e esposa do João Tamanco, exímio sapateiro da aldeia, apesar do seu olho de vidro e do seu daltonismo. Deus nos livre e guarde das tormentas, benzeu-se, ao olhar para o casal e os respectivos rebentos, ainda enfiados no banco de trás a teclar nos respectivos telemóveis - ou pelo menos a tentar, porque a última antena tinha ficado a trinta quilómetros de distância. Atrás de si vinha o seu Jaquim, espécime conservado em aguardente caseira e tabaco de barbas de milho, que fumava desde os dez anos, altura em que seu avô o tinha mandado trabalhar para os campos, a lavrar terra e cavar batatas. Era tão enrugadinho que de vez em quando enganava-se e tentava fumar o próprio dedo, que de tão castanho que estava já parecia em si um cigarro. Natália e Quim casaram-se com dezasseis anos, e tiveram onze filhos, ao contrário da sua irmã Rosinda, que casou casou com um cabo da GNR, tendo Quina nascido prematura de sete meses, logo depois da boda, e só teve mais quatro irmãos, que partilhava entre si a gestão da taberna e da casa do povo lá da terra.
Pielas de Baixo era famosa nas redondezas pela sua procissão, acompanhada ao toque da banda, e que passava por todas as casas do povoado para beber um copo de aguardente em honra do santo padroeiro. Escusado será dizer que a procissão só terminava quando o último dos membros da banda parasse de tocar devido ao avançado estado de alcolismo, tendo o mesmo que carregar o santo até ao adro sozinho, para depois poder beber da garrafa de aguardente de reserva que o pároco guardava na sacristia para aquela ocasião. Este ano, os organizadores tinham decidido animar um pouco mais a festa, decidindo fazer um baile animado pela grande acordeonista Samandra, vinda de Algodres de Cima, cuja fama como música diziam advir dos seus dotes...ahem...peitorais, que sustinham em si uma enorme caixa de ar. Publicidade lançada pelo seu manager, André Rosquinha, que fazia igualmente essa função para o grandioso grupo de baile, Los Hermanos Maritos, que também davam uma perninha como equilibristas no circo Chene.
A ti Natália já tinha posto a mesa no quintal para a família, estavam apenas esperando que o pároco chegasse. Tinha estado a arear as pratas para a missa e a provar da aguardente para avaliar o estado da mesma, motivo pelo qual já vinha cantando o Requiem em passo mais apressado do que o habitual. Assim que viu a chouriça moura assada e o arroz de grelos, nem se lembrou mais de dar graças, fincou-se logo num naco de pão e ali ficou a orar por entre as migalhas que lhe saltavam para a batina. Zé e Jaquim degladiaram-se para ver quem ficava mais perto da pipa, mas a prima Adosinda, conhecedora, já se lhes tinha adiantado, botando uma de cada lado da mesa. O primo Alberto, emigrante na Holanda, degenerado, só quis beber cerveja, de modo que ficou ao lado da arca congeladora, devidamente ligada ao gerador que usavam no centro de dia para dar oxigénio aos idosos. Quina e a prima Adosinda ficaram ao lado do grelhador, um bidon devidamente cortado ao meio e cum a grelha de arame farpado tirada da cerca dos coelhos da criação do ti Manel, e ali ficaram a aviar febras e entremeadas para o resto da mesa.
Finda a refeição, era tempo de rumar ao adro para o baile e para a quermesse. Quina esperava ser desta que iria ganhar a boneca para o papel higiénico que lhe faltava na parte de trás do carro, pois ainda só tinha uma, mais a respectiva almofada de folhos e o cão com o pescoço bamboleante. Zé queria simplesmente ganhar no campeonato de chinquilho, mas o tinto já tinha começado a fazer efeito e o primeiro malho foi aterrar aos pés do presidente da junta, que ainda por cima usava daquelas sandálias abertas com peúgas de lã, por causa dos joanetes - isto porque a Ti Mila Calva este ano ainda não lhe tinha feito a cura dos ossos porque o terreiro onde ela ia apanhar as suas ervas foi fechado por motivos de infestação bacteriana desconhecida. O presidente bem que tentou mexer uns cordelinhos - afinal foi a Ti Mila que curou as diarreias dos seus filhos com folhas de couve e papas de linhaça, mas os veterinários afirmaram que o terreiro estava radioactivo, algo que ele não percebeu, pois a rádio mais próxima era em Algodres.
Samandra abriu finalmente o baile, cantando a mais atroz versão dos êxitos de Tony Carreira, e Zé Camandro viu-se obrigado a ir para o arrasta pé mais a Quina, exímia fã do Tony e do seu filho Mickael, cujo ritmo sabia de cor e salteado - e era a sua safa, porque a música estava irreconhecível, mesmo tocada pelos ritmos electrónicos - infalíveis, esperava-se - do teclista que acompanhava a acordeonista. Seguiu-se uma espantosa versão do Favas com Chouriço, um medley dos Bee Gees, a valsa da meia noite e o corridinho versão electro com acrescentos de rap, tal como descrito pelo teclista. Depois de outros variados sucessos, tais como Ágata, Dzrt e Madredeus, Samandra finalmente terminou - para a alegria de muitos, que se viram obrigados a recorrer à barraquinha de shots de aguardente para aguentar a dança - com uma mui bonita versão da música do Jorge Palma, o encosta-te a mim, que deu logo azo a muitas mãos de rapazes solteiros a deslizarem para partes impróprias das virgens raparigas que por ali bailavam, seguidas de vários estalos sonoros, que os mais velhos pensaram ser uma espécie de acompanhamento da música. O pior deu-se quando o ti Janeiras, do alto dos seus noventa e três anos, subiu ao palco para agradecer a actuação da Samandra, mas como era baixinho, acabou com o nariz enfiado no peito da rapariga. Se tivesse algum dente de sobra, sem dúvida que teria saído dali com o maior sorriso da sua vida. Em vez disso, e já tocado pelo vinho quente com canela que tinham andado a distribuir, afincou uma palmada nas nádegas da rapariga e seguir ia partindo um pulso, não se sabe se à custa da dureza das mesmas (que às más línguas da festa diziam estar povoadas de gordura das farturas e dos churros que ela empaturrava depois das actuações) se da sua osteoporose que já ia dando de si.
O pároco decidiu então dar início à procissão, tendo convocado a banda com o toque do sino, e muito a custo se conseguiram reunir umas três pessoas para levar o andaime. Dois jaziam debaixo da mesa do jantar, a dormir. Um outro tinha caído inconsciente debaixo da pipa de carrascão. Quatro tinham ficado envolvidos num jogo de lerpa, e estavam a apostar a farda para pagar as dívidas. Desesperado, o pároco decidiu chamar o sacristão para ajudar ao carrego...mas este tinha fugido com o teclista.
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