Thursday, January 24, 2008

Dakar portuga

Não havendo mais campeonatos de futebol a discutir (já tinham até passado os olhos pelo resultado das quatro equipas à disputa da Taça da Patagónia), alguém levantou a problemática do Dakar. Zé Camandro franziu o sobrolho, sorveu mais um trago da sua amêndoa amarga (digno aperitivo antes de se fazer à feijoada domingueira) e fez um ar sério, de quem está prestes a ter uma ideia produtiva. Todos pensaram que ele ia simplesmente agarrar na Bola e ir para a cabine, mas Zé limitou-se a sugerir que havia outras formas mais rentáveis de fazer o Dakar. O Manco, limpando o suor da testa (com o mesmo pano com que continuava a limpar os copos), aproveitou a achega e continuou o despique. Dakar português que se preze, tem homens valentes. Não há cá estas mariquices de gêpêesses e mapas. A malta sabe para onde vai, não tem cá que andar a perguntar onde que fica Dakar e outra porcarias. Basta atravessar a ponte, cortar a direito em Alcochete, e seguir estrada fora. É logo ali mais abaixo, a dar à praia e mai nada.

Depois havia a questão dos patrocínios. Quais Trifene 200, quais quê. Uma mulheraça daquele tamanho armada em esquisita, cheia de dores. Aquilo era fazer do camião dela uma barraca de churros e farturas, pôr a Jacinta ali de volta da sertã a despachar, ia render que era uma beleza. Mais o camião frigorífico da Super Bock, cheio de grades de mines, fresquinhas, ali mesmo a puxar ao tremoço e ao minuim. E o grelhador para as entremeadas. Toni Casquinha argumentou logo que não era preciso tanto - mecânico de mão cheia, sabia bem que bastava aquecer bem o radiador, limpar a chapa do motor. Sobrava espaço na bagageira para pendurar as morcelas e o presunto. Os couratos iam de arrasto no banco de trás, a ganhar o tempero, já dentro do alguidar.

Nada de motas quitadas. Uma Zundapp deixava rasto e fazia tudo de uma enfreada, e se fosse preciso ainda levava um caixotito atrás com umas quantas garrafas de tinto, que quanto mais rápido andar mais refresca.

Márcio André, levantando os olhos do poster da revista do Correio da Manhã, levantou uma questão: e aquelas boazonas que andam lá a distribuir as garrafas de chamapanhe e aqueles ramos estranhos? Era vê-las ali a suar com os calor, de bikini e boné da Galp, a distribuir mas era palmada...

A onda masculina começou logo a levantar as barrigas e a afiar os bigodes...Toni ofereceu-se logo para mecânico, Zé queria ser piloto, o Manco queria-se enfiar na cozinha. Já havia carros, o Manel do Talho já fazia contas aos caixotes de febras e couratos, enquanto o Quim da mercearia já ia começar a empacotar as couves para o cozido da chegada. A Funerária Alfamense e as Viagens Fim do Mundo ofereceram logo os patrocínios. Daí a pouco já estava tudo na garagem do Toni Casquinha, a tentar optar entre o Toyota Selica e o Ford Fiesta picado de ferrugem. Para a categoria das motas, a Famel do Zé e a Sachs do Roscas. Havia ainda a categoria dos pesados, na qual estavam incluídos a Ford Transit do Zé Lello, a roulotte do Abafado e a carrinha de caixa aberta das Empreitadas Botabaixo. O Ivan ainda quis pôr o seu camião a concurso, mas como tinha um carregamento de whiskey de Sacavém para despachar para Badajoz no dia seguinte, disse que depois logo os apanhava.

No comments: